do António Jacinto - Canto interior de uma noite fantástica

sereno, mas resoluto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado.

ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.

não quero tudo quanto me prometem aliciantes
nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o sesejo dos muitos com que me pareço.

quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
e se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera

que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais.

que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viscosos.

que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado.
e não transportarei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho.

assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!

António Jacinto

2 comentários:

Adolfo Payés disse...

Que belleza de poema, todo un privilegio disfrutar de tus versos..

Un beso con cariño..

Te dejo mis mejores vibraciones y deseos de paz y amor para estas fiestas navideñas y de año nuevo 2010...

Un abrazo
Saludos fraternos..

Que tengas un feliz fin de semana…

Akhen disse...

Para falar deste poema, só mesmo uma quadra dele mesmo, António Jacinto

Que dos céus as estrelas desçam/
esculpidas em mármore
E se abatam em mim na dureza /
pétrea e existente
E no chão abafado e maldito onde/
não desponta árvore
Crescerá num volume duro meu canto/
humano e quente.


Se entender, vá a
jim-viajantedotempo.blogspot.com,
está lá um poema a Craveirinha, o poeta moçambicano.

Paz e Luz no seu caminho