Estou babada!
Hoje ao almoço a Pati deu-me a notícia que me fez derreter.
Verdade! Comecei logo a imaginar o que o teria destacado. 
É que assim à distância não consigo acompanhar bem os passos gigantes do meu pequenino, Então ele já escreve... Vou ter que recuperar. E de um fôlego pegar em todos os bocadinhos para os saborear até apanhar a altura do tamanho das letras grandes e gordas que já legendam o seu dia a dia e desenham o caminho. Acho que tenho que correr um bocadito. É que num instante se desenrolam e sucedem as aventuras deste crescer num repente. Hoje vou vos contar a aventura que apanhei num recado da Pati: - O Isaac recebeu o prémio o escritor da semana! Não é para babar? Digam lá!
Anda, vem comigo brincar com as estrelas
Colhe-las uma a uma e guardá-las na dobra do meu vestido
Recolhida até ao peito quase a descobrir o umbigo
Pelas nossas mãos gorduchas e ainda pequenas de então

Anda, vem apanhar comigo as estrelas
Dá-me a tua mão e ajuda-me na corrida dos meus passos pequenos
E depois, com as nossas mãos em concha quase juntas em forma de coração,
Vamos guardá-las bem aconchegadas junto ao peito ainda liso de então

Anda, vem passear comigo nos meus sonhos de estrelas
Vem sonhar comigo os meus sonhos de criança
Vou pegar-te ao colo e embalar-te docemente
No brilho suspenso do pó das estrelas

Povoar os teus sonhos de nuvens de linho
Na transparência suave dos contornos do tear do teu corpo
Estreitar-te na languidez do macio do imenso céu e calmo Olimpo
Onde se espalha a matéria de que são feitos os teus sonhos

Guardarei o meu fogo na tua tenda do desejo
Região mistério desse espaço difuso entre finas linhas
Abraçadas no torpor da minha chama tecida em tela de vida
Padrão pulsante e vibrante com mesclas de luz de dor bordada
Na seda da malha com que te cubro o corpo abandonado

Vou pegar-te ao colo e embalar-te novamente
No lume aceso do brilho suspenso do pó das estrelas  


18 de maio - Parabéns meu filho!

Hoje é um dia especial assim mais do que costumamos fazer dos outros dias para os tornar especiais.
Não, não é pelo dia dos museus, isso é só uma convenção.
Bem sei que esta data foi um marco para alguns factos, se nos lembrarmos assim que em 112  se assistiu à eleição de um papa, em 152 um casamento real, em 565 o cerco de Malta, em 804 é coroado um imperador e em 910 a terra passa pela cauda do cometa Halley. E já neste milénio, no  006 voltamos a um assunto de património marcante, que foi  a inauguração do Museu de Arte Antiga aqui na capital. 
Mas não é desses assuntos que vos vou falar.
Bem, dirão vocês, é porque se trata do facto de ser o 138.º dia do ano no calendário gregoriano (139.º em anos bissextos). Faltam 227 para acabar o ano, e daí?
Nada disso! - É que faz hoje trinta anos, que nasceu o meu primogénito!
- É obra!
Asseguro-vos que passarei a olhar para o espelho de forma diferente. Pelo menos foi o que senti quando assimilei que passaram três décadas daquele dia maravilhoso que mudou completamente a minha vida e a que se juntaram outros que rechearam de vitórias a minha marcha, e coroaram de glórias a arca e relicário onde guardo as memórias.
Estamos próximos, e ele faz o seu caminho.
Obrigada meu filho.

Parabéns!

Pentecostes em abril - visto do arco da rua augusta

Não esperamos cinquenta dias.
Urgia que fosse feita a comemoração e ainda não tinhas subido aos céus pois querias fazer parte da festa.
Sabias que precisávamos de ânimo e a nós te juntaste e deste a volta à história.
Eu subi lá acima, queria ver melhor e vi-te cá em baixo entre os demais. 
Será que partes de novo? Sei que queres continuar os ensinamentos. Receio que nos faltem as forças e não consigamos acompanhar.
É preciso lutar. É preciso mudar. É preciso continuar.
Levantaste-te nem faz uma semana e assim se decidiu antecipar este Pentecostes e trocar as voltas ao estabelecido.
Trouxeste então a chama como derradeira luz de esperança nesta festa antecipada.
Fizemo-la não no sétimo dia depois da tua ascensão, mas quase ao sétimo da tua ressurreição.
Da praça se fez o cenáculo e éramos todos discípulos. Assim o percebemos, assim o recebemos. 
E o festival da colheita rubra, fez descer do céu línguas de chama em corpo de cravos em sangue que desciam até nós mitigando com a sua luz os nossos espíritos esfomeados de justiça.
Do cenáculo transportado para todas as almas de um tempo de novo sombrio chegava a voz do exército, no apelo aos mandamentos para devolver  esperança em tempo do êxodo.
Pentecostes em tempo antecipado, o espírito que dará o dom das línguas que vestirão um novo discurso, a nova força que marcará de certo o nascimento do movimento pentecostal.
O que nasceu quando os cravos vieram do céu.

no 11 de abril o que viram os meus olhos


Eis-me aqui na partilha deste momento que fizeste questão de dizer que o tornaste possível para nos poder proporcionar.
Só o fazias por nós. Assim era para ti, mais nosso do que teu.
Para ele estava já conquistado mesmo sem a comemoração.
Todo aquele cerimonial era-nos carinhosamente oferecido.
Cuidei para que estivesse bem à tua altura, disse-to. Resmungaste carinhosamente qualquer coisa como; “Deixe-se disso, mãe”.
Caminhamos quase nervosamente para a catedral e no átrio encontramos já alguns pares que cumprimentaste quase cerimoniosamente e me prestaram a igual e devida vénia.
Percorremos as galerias cruzando-nos com um cem número de quadros negros resplandecentes de júbilo que iluminavam o espaço e que em breve se nos juntaram na enorme nave prontos para assistir ao ofício diante do coro onde doutos haviam já tomado o lugar no altar-mor e iniciavam a celebração.
Houve ainda espaço para cumprimentos entre os quadros e profundos negros, antes do canto litúrgico sob a forma de ritual formal elaborado.
Chegado o momento central da celebração a liturgia deu lugar à consagração onde chamados um a um os 253 vultos juraram o compromisso da sua honra diante dos cerca de 600 fiéis, familiares e amigos, onde se assistia à transubstanciação do esforço e sonho no corpo do documento agora entregue.
Vibramos no clamor e no brilho do momento, vestimos todos a veste negra que nos abraçava no conforto do veludo macio da noite mais calorosa.
Em mim a invadir-me aquela forte sensação do abraço da vida a premiar-me. Sentido de dever cumprido? Não é bem isso. Isso dito assim parece-me mais um fim de caminho, e está longe de o ser.
Apaziguava-nos o destino feito fato à medida do sonho, executado no rigor do estreito cumprimento das tuas directrizes.
- Fica-te bem filho, usa-o com a devida cerimónia.

sábado de família


O sábado trouxe o aconchego da família desta vez na nossa casa.

Esbanjou, encheu e preencheu de brilhos em formas de sorrisos a pintalgar em ritmo de sembas todas as paredes, que deixaram as marcas que me vão bastar e fazer a conversa de todos os mugimos que surgirem até ao próximo encontro.

O telhado ficou baixinho a acariciar-nos as cabeças feito protetor e pai gerador do quente da barriga daquela sala que cresceu para acolher todos e alargou as ancas para fazer até quintal de todo o resto da casa onde corriam os candengues, já vindos dos mais novos da última linha.

Estávamos de novo a partilhar as últimas.

O filho que regressou, a mana que se espalhou, a sobrinha que alcançou.

- Podem mesmo abrir os sorrisos sim, é por graça mesmo, mas vou traduzir;

O filho não aguentou a distância e atirou-se para os braços do incerto na firmeza da coragem que determina a certeza rodeada dos afetos lhe fará superar a dureza da distância.

Isso mesmo!

A mana apanhou piso molhado e levou um susto daqueles que lhe fez esconder o episódio mais de uma semana, que lhe revirou o carro, e lhe fez ver de repente o mundo virado ao contrário, ainda para acrescentar que estava com o bebé e a cena tomava assim proporções de gelar os trópicos.

- Assim resolveu só contar agora, para não preocupar.

A sobrinha alcançou, já tínhamos mesmo brindado, só que agora, com as costuras a já não aguentar o tamanho, do mais novo anunciado, foi de novo motivo de alegria e de renovação de brindes a cada instante de só olhar.

- Eram os momentos do saber da continuidade!

A falta de alguns, justificada pelos motivos que só davam alegrias aos restantes, fazia assim deles igualmente presentes.

O almoço era reconforto, bagre trazido do sul a aquecer a mesa, pipis bem apurados, calulú acanhado um pouco mal sucedido no olhar de que se habitua a vê-lo instalado a nos grandes tachos costumeiros que agora não podiam estar.

O remate estava nos doces de cada especialista que sabe de cor a matéria de que são feitos os gostos de cada um.

O resto era o não caber de alegria e do prazer da comunhão

Sábado de família, desta vez o telhado quente a acariciar as nossas cabeças nestes nossos momentos, certos do calor do legado que preservamos.