no 11 de abril o que viram os meus olhos


Eis-me aqui na partilha deste momento que fizeste questão de dizer que o tornaste possível para nos poder proporcionar.
Só o fazias por nós. Assim era para ti, mais nosso do que teu.
Para ele estava já conquistado mesmo sem a comemoração.
Todo aquele cerimonial era-nos carinhosamente oferecido.
Cuidei para que estivesse bem à tua altura, disse-to. Resmungaste carinhosamente qualquer coisa como; “Deixe-se disso, mãe”.
Caminhamos quase nervosamente para a catedral e no átrio encontramos já alguns pares que cumprimentaste quase cerimoniosamente e me prestaram a igual e devida vénia.
Percorremos as galerias cruzando-nos com um cem número de quadros negros resplandecentes de júbilo que iluminavam o espaço e que em breve se nos juntaram na enorme nave prontos para assistir ao ofício diante do coro onde doutos haviam já tomado o lugar no altar-mor e iniciavam a celebração.
Houve ainda espaço para cumprimentos entre os quadros e profundos negros, antes do canto litúrgico sob a forma de ritual formal elaborado.
Chegado o momento central da celebração a liturgia deu lugar à consagração onde chamados um a um os 253 vultos juraram o compromisso da sua honra diante dos cerca de 600 fiéis, familiares e amigos, onde se assistia à transubstanciação do esforço e sonho no corpo do documento agora entregue.
Vibramos no clamor e no brilho do momento, vestimos todos a veste negra que nos abraçava no conforto do veludo macio da noite mais calorosa.
Em mim a invadir-me aquela forte sensação do abraço da vida a premiar-me. Sentido de dever cumprido? Não é bem isso. Isso dito assim parece-me mais um fim de caminho, e está longe de o ser.
Apaziguava-nos o destino feito fato à medida do sonho, executado no rigor do estreito cumprimento das tuas directrizes.
- Fica-te bem filho, usa-o com a devida cerimónia.

sábado de família


O sábado trouxe o aconchego da família desta vez na nossa casa.

Esbanjou, encheu e preencheu de brilhos em formas de sorrisos a pintalgar em ritmo de sembas todas as paredes, que deixaram as marcas que me vão bastar e fazer a conversa de todos os mugimos que surgirem até ao próximo encontro.

O telhado ficou baixinho a acariciar-nos as cabeças feito protetor e pai gerador do quente da barriga daquela sala que cresceu para acolher todos e alargou as ancas para fazer até quintal de todo o resto da casa onde corriam os candengues, já vindos dos mais novos da última linha.

Estávamos de novo a partilhar as últimas.

O filho que regressou, a mana que se espalhou, a sobrinha que alcançou.

- Podem mesmo abrir os sorrisos sim, é por graça mesmo, mas vou traduzir;

O filho não aguentou a distância e atirou-se para os braços do incerto na firmeza da coragem que determina a certeza rodeada dos afetos lhe fará superar a dureza da distância.

Isso mesmo!

A mana apanhou piso molhado e levou um susto daqueles que lhe fez esconder o episódio mais de uma semana, que lhe revirou o carro, e lhe fez ver de repente o mundo virado ao contrário, ainda para acrescentar que estava com o bebé e a cena tomava assim proporções de gelar os trópicos.

- Assim resolveu só contar agora, para não preocupar.

A sobrinha alcançou, já tínhamos mesmo brindado, só que agora, com as costuras a já não aguentar o tamanho, do mais novo anunciado, foi de novo motivo de alegria e de renovação de brindes a cada instante de só olhar.

- Eram os momentos do saber da continuidade!

A falta de alguns, justificada pelos motivos que só davam alegrias aos restantes, fazia assim deles igualmente presentes.

O almoço era reconforto, bagre trazido do sul a aquecer a mesa, pipis bem apurados, calulú acanhado um pouco mal sucedido no olhar de que se habitua a vê-lo instalado a nos grandes tachos costumeiros que agora não podiam estar.

O remate estava nos doces de cada especialista que sabe de cor a matéria de que são feitos os gostos de cada um.

O resto era o não caber de alegria e do prazer da comunhão

Sábado de família, desta vez o telhado quente a acariciar as nossas cabeças nestes nossos momentos, certos do calor do legado que preservamos.

 
sabe-me a sal
a onda em cada sulco de pele de alento onde me aquieto

sabe-me a sol
a planície dourada do extenso e morno areal onde me deito

sabe-me a mar
a paz que bebo na tua cama de aconchego
Porque te estranho quando as tuas escolhas
Se sentam na casa grande do amor?

Porque me espanto quando me falas
do colo grande do amor onde cabem destinos
e onde todas as perguntas encontram resposta

Ergo o meu olhar até ao topo do mundo que persegues
Onde queres viver rodeado saciado de afectos
Ventre imenso de amor por onde conduzi os teus passos

E sigo as tuas asas
Encontra-me
No encanto do brilho da pérola da tua lágrima
Onde prendi o meu olhar e me deixei levar
conduzida ao fundo de ti onde te li em todos os teus prantos

Procura-me
Nos cantos de contos de desencanto nota a nota
Onde tons de melodias em goles de anéis efémeros de azul
enleiam a luz dourada do teu prado de esperança

Fica
Dou-te as minhas pérolas

Seca-me a pele de tanto amargo ao meu redor
Doem-me os olhos de tanto quadro de dor
Explode-me o peito de tanta voz em grito sufocado
 
Mas porque se calam os braços e não abraçam mais as ruas?
Porque se tolhem as pernas e não correm pelas lutas?
Ardem-me os olhos a pele a boca a marcha o grito a cor da impotência
Verte-me o pesar do ar que não quero mais respirar
 
Porque se calaram os braços?
Porque falam em surdina todas as pernas da minha rua?
Veste-me o luto que não vou mais querer vestir
 
Quero voltar a ver a luz do cravo rubro
E beber do seu licor em cada madrugada

hoje, amanhã e todos os dias o teu dia

Pai, vê como cresci dentro de mim.
Vê como aprendi que fiquei grande, no enorme espaço cá de dentro
Ao ver ainda em cada passo, em cada enlaço em cada encalço
Como são enormes, todas as pequenas coisas que abraço

Vê pai, como ainda sou tão pequenina
Como ainda me deslumbra e me encanta, cada descoberta
Como acredito em todos os homens, no amor e na esperança
Como me apaixono e me deixo levar atrás de todos os possíveis

Vê pai, como abraço o triunfo de cada madrugada e persigo sol
Até que este desfaleça ao colo do mar da noite que se agigantará até ser dia
Vê como ainda sinto o vento a brincar entre os dedos dos pés
Quando fechos os olhos e balouço até ver crescer as minhas asas

Vê pai como cresci dentro de mim
Como acredito na força que me impele para diante
Aquela imensa e mansa em que me fizeste acreditar
A que aprendi na chama dos teus olhos brandos

Vês pai, podes continuar a descansar na tua nova viagem
Eu já cresci dentro de mim e sou ainda a tua pequenina