Encontro - do norte para sul olhando o sol

Encontro-te à direita quando olho de frente o nascer da estrela central que me ilumina
Aquela que orbita em torno do centro da faixa brilhante e difusa que circunda o firmamento, onde pertencem praticamente todos os objectos visíveis a olho nu nesta imensa galáxia.
"Meridional ou Austral" outros te chamarão e eu chamo por ti quando me encontro num dos pontos do hemisfério para onde aponta a sombra do sol ao meio dia.
E é daqui que te chamo, é daqui que te procuro e te tenho à mão esquerda, quando me quedo no sítio em que da linha do equador, ao sexto mês,  o da deusa romana, observo de frente o nascer da grande estrela.
No oposto do caminho é onde estou, setentrião, setentrional ou boreal, eis onde me encontro. 
E o que procuro em ti de onde estou, vem-me através de mim onde pertenço.
No teu chão encontro o sol a cama o leito onde me deito
No teu ventre largo e fundo a noite onde adormeço
No teu céu galgo o reflexo da chama e me deleito
Pele do húmus quente e forte no vigor do recomeço

E num sonho te percorro em trajecto de memórias
Onde há vida e fúria e grito puro rio encantamento
Estradas ruas luas tempos rasgos, largos campos de vitórias
Seiva força alma sangue sombra alento chamamento

Ode névoa brilho espanto, brando acorde que me deste
Lira mira norte sul, e estranho encanto, doce manto que me veste

no regresso

Quando cheguei engoli-te inteira e grávida de ti me vi

Então te pari estrada minha, de esperança concebida
no corredor estreito e escuro da sucessão dos dias e das noites 
agora viva, tida inteira e verdadeira

Desfolhei-te nua clara negra cheia mansa  lisa 
lua noite brilho encanto e doce apelo
desflorando, cavalgando a madrugada

Percorri-te à luz dourada dos caminhos flamejantes 
mergulhei-te na volúpia em quadros quentes vibrantes
amei-te no fulgor de nova vida prenhe e fresca a serpentear
Assim me vi colada às veias e nervuras do teu corpo
no curso do teu sangue pulsante a marcar o ritmo incessante e quase insano
sincopado sinuoso e gingado que te saltava em gargalhadas incontidas do teu peito
Senti-te ao toque ao tímido desejo no arrepio e conchego 
no som inebriante em travos longos e vorazes de delírio e de desejo
no repouso adocicado da chama purpúrea do teu colo 

Inalei em golfadas todo o ouro que exalavas ao meu redor aos borbotões.
E na geometria desconcertante  das tuas linhas finas e rudes
bebi o cheiro o mel, unguento, transbordante o alimento da minha alma sedenta 
na assimetria das paredes do teu corpo, o ardor, o calor picante, o gozo o mosto, o gosto                                    
fez guião a estrela o horizonte, trave, tábua, o pão repasto da minha carne faminta

Assim apaziguada te desenhei em novo mapa
Esculpi-te no sabor que deslizava num saber sussurrante
que aumentava o ritmo, galgava as margens erguia as velas e tomava o leito
marcava a cadência incessante  de uma dança iniciática
no clarão da explosão de êxtase e plenitude

E pintei de novo as ruas, tuas formas de passados em novos presentes
moldei-te nos contornos do futuro certo no errante do balanço
onde te achei no recente rítmico ziguezaguear de costuras renovadas
Quis voltar e tomar-te de novo estrada minha


salvo conduto

O filho deixou-me o salvo conduto
de forma transparente feito romance
com uma recomendação do seu conhecimento
e efectiva propriedade
para a transição para sul.
Assim o cumprirei.
Do início, o prenúncio da genialidade
através do bilhete amarrotado de Odonato:
"acabou o tempo de lembrar
choro no dia seguinter
as coisas que devia chorar hoje"

(Sobre os transparentes de Odjaki)

17 de novembro de 2013


Oiço o teu rugido, som profundo

Na marcação de território, onde comunicas qual felino

E na escala a sequência dos intervalos do compasso

Marcas o tom do andamento da luta, fúria, excesso,

 

No vigor das frescas notas da tua partitura

Inscreves a representação impressa com a escala,

O vigor dos verdes maduros anos de uma luta de vida enviesada

Pelos golpes de tormentas de mar alto sem lei  

 

Assim me trais cria minha

Descuidando o caminho direito,

Do desvelo de cuidados do ventre colo coração

Que te orienta a bússola que te estendo, de onde desvias o olhar

 Buscando antes o solto cata vento do caminho certo que é o teu

 

Oiço notas de gemido, com que acarinhas os laços fortes

Com a intensidade que se estende ao grunhido

Com que descerras fileiras, esventras a terra

Onde semeias fé e regas com a chuva de estrelas

Na tua luz de certeza onde confio esperanças

 

Já não tenho braços largos nem colo extenso,

para a terra de um gigante

Dá-me a tua força, ajuda-me a abraçar novos mundos,

Já caminhas ao meu lado

Parabéns meu filho!
 
O que resta da vida se guarda naquela que queremos
No encontro da tida com a que nos resta, nascida bonança.

O que fica da vida se aguarda naquela que cremos
No espaço da tida com a que nos presta assim o sabemos

Tecida de afeto, coragem, regresso, sucesso, esperança
vestida de novo futuro, inventado, esperado, assim (a)guardado

Colhida, do filme sonhado, sentido, mantido, calado,
no sonho esperado, criado, agora vivido
em desejo, turpor (n)a(r)dor permanente

Ao grito da angústia que clama no sopro do fundo do rasgo do peito
esculpido, sustido, na chama, rasgado, investido
responde o desejo do quente veludo do colo do leito

Fiado caminho, rendado, rendido, escolhido,
sossego sussurro, revolto tornado, tornado presente.