aconchego

Sonho-te 
Na rede tecida em noites brancas de doçura
Enleada em azuis de fumo entrelaçados no espaço
em dança ondulante em estreito abraço
e volteios em espirais redobrados de candura 

Quero-te

E deslizo e mergulho no meu mar
De rede tecida em brancas noites onde fico acordada
estendida na fina pele de rendas de sonhos em fios de teia bordada
onde desfilam cores em matizes de aurora com resquícios de luar

Espero-te
Na rede tecida em brancas noites dolentes
enquanto escuto o som da longa esteira de desejo
e me deleito com o licoroso chão do teu corpo ébrio ensejo
adoçado ao sabor da espuma arrastada em sorvos cadentes

Encontro-te
Na rede tecida em brancas noites onde me esqueço
enquanto ponto a ponto se preenche frisa a frisa
o corpo ondulante abandonado ao sabor da brisa
no fundo do pano do ventre negro e liso onde adormeço


Assim me conchego na rede de seda tecida em noites brancas
enleada em azuis de sonho em espirais ondulantes de doçura 
e volteios em espirais redobrados de candura

Co(a)ntos de olhar


 
Meus olhos estão mudos devíeis ver
num tempo que é tempo, de luto, cegueira vestida
amarras, cortina, anónimos vultos e deserto saber
É tempo de choro de raiva de luta, investida
contida promessa de acontecer

E em vão, se passeiam meus olhos cinzentos
que teimam lamber os recantos vazios sem nada dizer
Percorrem calados caminhos despidos buscando alimentos
De cores de alento perfumes de força e sonatas de fé
 
Num acordo se acordam, no acorde de acordo com tempo
De novo compasso de esperança, de pausa e espera dum acontecer
E prometem que é hora de luta, de força e coragem, o momento
Da toada calada, investida incontida, e a promessa de amanhecer

Então se levantam e se apontam adiante enfrentado o vilão
Engolem o cerco e cospem algozes meus olhos sedentos
Se vêem capazes vorazes e empunham vibrantes a espada na mão
e  lambem as cinzas amargas e espalham unguentos
nas vestes que vestem os sulcos de pele que forram o chão
E enfim derrubam o muro devoram o espaço e abraçam a multidão

E agora não calam e agora já falam e me dizem que não
E cantam o acorde de acordo com o tempo de novo viver
É tempo de luta, de festa em promessa de acontecer

rumos

rumos de sonho dourado de estrelas navegantes de brilho escarlate
hálito quente do húmus da terra que invade o corpo
caldo revigorante no fresco morno que amacia os dias
e marca o ritmo de mistura com a frenética  batida dos sons da cidade
futungo, futuro,embarque, sul, terra, choro e riso, sal e mar, lua, luanda  

tréguas

recolho os despojos de pedaços de mim
dito as tréguas e declaro o fim

dispo resoluta o peso da cota de malha
dito as tréguas e declaro o fim
lambo as feridas ainda dormente
com sabor vermelho doce e quente
da dor profunda de longa batalha

Rendida ao teu encanto rubro e doce

Rendida ao teu encanto rubro e doce
Em ti acácia quente, carne e fogo
Pouso meus lábios sedentos da água doce do teu corpo.
Caudal de lava, terra minha
Meu chão, esteira, manta, leito quente,
meu caminho leve e mágico com notas de lume embriagantes
de lânguidas línguas escarlate de vibratos ondulantes

Engole-me agora a dor e embebe-me o espírito uma e outra vez
no licoroso torpor feitiço da tua vontade feita minha
Assim me rendo novamente ao teu encanto rubro e doce