A Noite não me Deu nenhum Sossego
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.
William Shakespeare, in "Sonetos"
Tradução de Carlos de Oliveira
Citador
vestir o sul
Quero vencer as sombras.
Rasgar o ventre da noite e fitar a luz
Inventar-me de novo para mim
E vencer as sombras feita Deusa
vestir a glória feita história
abraçar o mundo que me espera
entre fa(r)dos e co(r)pos de festim
Vou vencer as sombras,
das dores da cura inventada pela espera
da luta desigual da caminhada
Vou sair do escuro cego de brancura
E esquecer o vazio de tempo sempre cheio
E o norte embriagado feito estrela
do grupo do cruzeiro lá do sul
Vou subir, e vestir o sul
Quero voltar para mim
Rasgar o ventre da noite e fitar a luz
Inventar-me de novo para mim
E vencer as sombras feita Deusa
vestir a glória feita história
abraçar o mundo que me espera
entre fa(r)dos e co(r)pos de festim
Vou vencer as sombras,
das dores da cura inventada pela espera
da luta desigual da caminhada
Vou sair do escuro cego de brancura
E esquecer o vazio de tempo sempre cheio
E o norte embriagado feito estrela
do grupo do cruzeiro lá do sul
Vou subir, e vestir o sul
Quero voltar para mim
cor inventada
Vá, Inventa uma cor,
Desdobra e faz uma flor
Aconteça o que acontecer
E até te apetecer
Desdobra, desfaz o feitiço,
Saboreia o fado mestiço
Mastiga a carne, engole o ardor,
Inventa a cor, faz uma flor.
De sangue, desejo, doce amargo
Intenso, quente, casto, encargo,
Saboreia o fado mestiço
Descobre um novo feitiço,
Inventa a cor, faz uma flor.
Depois, vagarosamente,
Terna leda e mansamente,
Pega, bebe e guarda junto ao peito
Aconteça o que acontecer,
Vem, decididamente,
No veludo negro do teu leito
Inventar a cor e abrandar a tua dor.
Desdobra e faz uma flor
Aconteça o que acontecer
E até te apetecer
Desdobra, desfaz o feitiço,
Saboreia o fado mestiço
Mastiga a carne, engole o ardor,
Inventa a cor, faz uma flor.
De sangue, desejo, doce amargo
Intenso, quente, casto, encargo,
Saboreia o fado mestiço
Descobre um novo feitiço,
Inventa a cor, faz uma flor.
Depois, vagarosamente,
Terna leda e mansamente,
Pega, bebe e guarda junto ao peito
Aconteça o que acontecer,
Vem, decididamente,
No veludo negro do teu leito
Inventar a cor e abrandar a tua dor.
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