vestir o sul

Quero vencer as sombras.
Rasgar o ventre da noite e fitar a luz
Inventar-me de novo para mim

E vencer as sombras feita Deusa
vestir a glória feita história
abraçar o mundo que me espera
entre fa(r)dos e co(r)pos de festim

Vou vencer as sombras,
das dores da cura inventada pela espera
da luta desigual da caminhada
Vou sair do escuro cego de brancura
E esquecer o vazio de tempo sempre cheio
E o norte embriagado feito estrela
do grupo do cruzeiro lá do sul

Vou subir, e vestir o sul
Quero voltar para mim

cor inventada

Vá, Inventa uma cor,
Desdobra e faz uma flor

Aconteça o que acontecer
E até te apetecer
Desdobra, desfaz o feitiço,
Saboreia o fado mestiço
Mastiga a carne, engole o ardor,
Inventa a cor, faz uma flor.

De sangue, desejo, doce amargo
Intenso, quente, casto, encargo,
Saboreia o fado mestiço
Descobre um novo feitiço,
Inventa a cor, faz uma flor.

Depois, vagarosamente,
Terna leda e mansamente,
Pega, bebe e guarda junto ao peito
Aconteça o que acontecer,
Vem, decididamente,
No veludo negro do teu leito
Inventar a cor e abrandar a tua dor.
Festival OLLIN KAN - Casa da Musica 22 Julho 2011. Sodade de um memorável encontro entra a Kora de Madou Diabaté, a Guitarra Portuguesa de Custódio Castelo


O teu dia da chegada e da partida

9-12-1932 /9-12-2011
O teu dia da chegada e da partida

Sexta feira,9 de Dezembro
O dia em que o céu se tingiu de timbre rubro vivo
Odor forte que acende o corpo e acalma a alma
Vestido do brilho de estrelas bagas escarlate

Eu nasci no café, vivi no café… a tua lenga-lenga,
de que já nos apropriamos fazia-se ouvir já rouca e sem fôlego
por cima de um som de quissange vindo de dentro da nossa cabeça
a compor a sinfonia da partida…
Eu nasci no café, vivi no café…

E na hora em que agigantaste docemente os ramos
e simplesmente decidiste tomar assento no grande planalto
assim se fez vontade e se plantou no firmamento
um extenso e enorme cafezal

Assim se cumpria o teu ciclo
por cima de um som de quissange vindo de dentro da nossa cabeça
a compor a sinfonia da partida
Tu, não deixaste caminho, curva ou estrada por desbravar
Batalha, espera ou fado por vencer
Foste vida de força e sabedoria que eu quero aprender

E de novo por cima de um som de quissange vindo de dentro da nossa cabeça
a compor a sinfonia da partida, se fazia ouvir
Eu nasci no café, vivi no café…

Assim se cumpria, vencidos os teus 79 cacimbos nem mais nem menos,
O teu dia, era a tua hora da chegada e da partida
E eu não te queria chorar porque quiseste que fosse alegria
A chegada na tua partida, a partida na tua chegada, assim tu o fizeste.

No teu dia minha mãe, fez-se ouvir o teu fio de voz
Tatuado nos corpos ferventes de todas as paredes
Num chão liquefeito negro vivo a exalar o odor forte
e quente que desde sempre nos confortou o corpo e acalmou a alma
e nos fez acreditar que tudo se há-de arranjar... a sul

Eu nasci no café, vivi no café…