Namibiano ferreira. Porque me apetecem poemas encantados

ÓLUSAPÒ WA SEKULU LUÍJI



O Sekulu Luíji contava estórias
e no forno de barro assava leitões
para ganhar alguns magros tostões
era o melhor assador das redondezas.

As estórias do Sekulu Luíji
eram poemas encantados
que nenhum poeta consagrado
haverá algum dia de escrever.

O Sekulu Luíji contava estórias
e no forno de barro assava leitões
para ganhar alguns magros tostões.
As suas estórias eram encantos
que nem todos sabiam escutar...
era o melhor contador de estórias
das redondezas: – Ólusapò wá...
ólusapò wá kandimba kwénda hósi...

Um dia o Sekulu Luíji desapareceu.
O Sol e a Lua somaram os dias...
e o Sekulu Luíji não mais voltou
(nunca mais haveria de voltar).
E as estórias só desapareceram
contadas na boca do Sekulu Luíji.
As estórias, o cerne e alma delas,
ficaram retidas, porém, na ventania,
voz oral do vento que nem muloje
consegue fazer calar no feitiço.

– Xé mano, sente só, Sekulu Luíji
desapareceu. Foi karkamano
foi karkamano que pegou
foi karkamano que matou
Sekulu Luíji – aiuê, aiuê, Suku yanguê!
Murmurava o povo no cicio da brisa medrosa.

O Sekulu Luíji nunca mais voltou
nunca, nunca mais... nunca mesmo.

Mas à noite, nos meus sonhos,
quando volto de novo a ser candengue,
Sekulu Luíji vem contar-me estórias
e ri muito, um riso muito cheio de vida,
um riso a fazer bailar o ouro das estrelas
como no tempo em que me ensinava,
na mangonha das tardes, a xingar em umbundu
sob o olhar reprovador e muxoxo censura
dos kotas e outros sekulus sisudos.

E nos meus sonhos, quando ele ri muito,
muito de fazer bailar o ouro das estrelas,
a sua boca solta-se no algodão todo sorriso de marfim.
Ele é um anjo negro na plumagem alada do brilho
a reluzir, a brilhar uma luz tão intensa e tão forte
que a noite do sono se transforma num dia de sol.

As estórias que ele me conta nos meus sonhos
transformo-as eu, depois, em versos e poemas acontecidos
no cetim onírico da poesia que timidamente faço acontecer.
Mas são pobres os poemas acontecidos perante as cores
e missangas, riquezas e silêncios, gestos e momentos
que o meu mestre tão sabiamente sabe criar e contar
na boca sem escrita das bikuatas do verbo e do vento...
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Olusapo lwápwá (a estória terminou)

Namibiano Ferreira

Glossário:


Aiuê, aiuê, Suku yanguê! – Ai, ai, meu Deus! Em umbundu.
Bikuatas – Carga, pertences, haveres, bagagens. O mesmo que imbambas.
Candengue (kandengue) – Criança, criancinha.
Karkamano – Nome pejorativo que se dá, em Angola, aos Sul Africanos brancos.
Kotas – São os mais-velhos, homens respeitados.
Mangonha – Preguiça.
Muloje – Feiticeiro.
Muxoxo – Barulho característico que se faz, fazendo passar o ar entre a língua e os dentes, verbo muxoxar. O muxoxo tem uma conotação de sensura, reprovação ou desdém.
Ólusapò wá... – Esta é a estória... (umbundu).

Ólusapò wá kandimba kwénda hósi... –Esta é a estória da lebre e do leão... (umbundu)

Sekulu – Ancião. Deve ler-se com “e” aberto recaindo a sílaba tónica na segunda sílaba, (sekúlu).

Como a maré

Trato, traço, meço, laço e finco pé
Entendo, escuto, abrando e ouço até
Venço, cresço, marco, abraço, fico de olho
Recupero, espero, avanço, desfaço e escolho


E fico
Como a maré

E apago a mágoa a dor a sombra que já não é
Aguardo adio recuo faço marcha a ré
Embalo o sonho, repouso, respiro de novo e acolho
A glória a chama a luz a paz a espuma eu colho

E fito
Como a maré

Enfrento a fúria, a fera e não calo o grito
Acendo o lume, guio eu os passos e não evito
Entorno o copo, apago a luz e volto a pé
Escalpo a dor, enfrento a noite e solto a fé

Acento, avanço e danço, decido meu caminho
Desenho a curva e canto, faço o meu destino

E dito
Como a maré

Aos meus filhos

E as minhas pernas ergueram-se na noite negra reflectidas no espelho da lua
E os meus braços feitos ramos abraçaram a terra rubra e quente de mim
Os meus cabelos feitos folhas emaranhados em raízes de luar
Colheram então todas as águas de rios regatos e salgado mar
E arranquei-vos do ventre vitoriosa na batalha da vida

E o meu corpo fez-se ponte onde pudestes atravessar mundos imaginários
De contos e fantasias de dias e noites de nunca acabar
Povoados de historias de demónios e fantasmas, gigantes, príncipes e princesas
Chucucumas, tchiquissiquissis, cágados sábios e coelhos candimbas
Misturados com cigarras e formigas capuchinhos vermelhos
naus Catrinetas, Reis Herodes, carochinhas e casinhas de chocolate

E aqui se puderam banhar na cascata dos meus olhos em torrentes de emoções
Pudestes refrescar-vos na sombra do meu peito e sossegar no ninho do meu colo
E as vossas pernas ergueram-se e multiplicaste-vos
E vistes a terra vermelha e olhastes o mundo pequenino lá de cima

Assim se fez dia e então adormeci

Num qualquer dia o teu dia minha mãe

Num qualquer dia o teu dia minha mãe
Bordado ao de leve com fios da prata dos teus cabelos
em cambraia de pele em dobras finas de rosto colado ao meu
ainda te tenho e guardo-te envolta na luz que me dá vida
te guardo quando me resguardas no ninho de colo que ainda é meu
assim me acolhes no doce profundo e calmo de olhar
Num qualquer dia do teu dia minha mãe

Hoje vou agarrar este sol

Hoje aproveitei a viagem para escancarar a janela sem ver
já que o sol se fez presente pra mim num quente brilho de doer
Deixei que pousasses a tua mão em concha na minha cabeça e a confortasses
Que os teus doces lábios carnudos levemente tocassem a minha testa
e de mansinho felino deslizasses no escuro sedoso das minhas faces

Depois, que pousasses nos meus lábios um beijo quente quase ardente
agarrasses em fúria de rio a minha nuca e apertasse os meus ombros,
percorresses lentamente o meu corpo disposto a amar-me,
até que me tomasses de forma a não mais puderes abandonar-me.

Enfim deleitada murmurei quando te olhei de olhos fechados e corpo dormente
Fiz-te sol, e hoje vou agarrar este sol.