levantar-me

Hoje vesti-me de luto
Mas a minha alma troçou de mim
e o berrante do riso atravessou a cor
vestida de negro da suposta dor
e tingiu o negro de luz em tom de carmim

Hoje acordei com o peso de penas, e ais
Desaires, discórdias, enfados, e outros que tais
Vestida de dor, desamor, tristeza, desencantos reais
Mas um estado de graça tomou conta de mim
Cobriu-me, vestiu-me de glórias e ditou o fim

Assim me achei num estranho estado de mim
E disse para mim
Hoje acordei leve e vou vestir-me de cores para mim

à espera

Deixa-me mergulhar no teu corpo feito berço
E vestir-te do meu odor de vida feito pele
Quero atravessar contigo a neblina do sonho feita névoa de prata ondulando azuis
E saborear o húmus da terra vermelha que nos espera

18 de Maio

Já caminhamos juntos.
Assim mesmo, lado a lado.
É assim que o sinto.

Embora ainda caibas nos meus braços,
Ainda sossegues da luta diária, no repouso do meu colo
Sinto-te caminhar comigo
Assim mesmo, lado a lado

Festejado no costume da tradição
Reunimos no espírito da família
E estavas lá, a ocupar já um lugar quase de saber
Saltaste a curva do quarto de século
Feita já de algumas batalhas que te escolheram
Sem te olharem o rosto de menino
E com jeito de gente grande foste vencendo
Com elegância e sabedoria.

Posso contar-te um segredo?
Não existe maior tesouro, maior dádiva
Do que ter-te meu, sabendo-te já dono de ti.
Obrigada, meu filho, meu primogénito.
Sinto orgulho de ser tua mãe

à sombra da tua tenda

Hoje vou aproveitar a sombra da tua tenda
E fiar demoradamente a mescla de cores e odores
Que retirei da luz da noite da minha pele
Enquanto isso, bebo deleitada a paisagem que sorvo de mim
e redecoro e ilumino a tua capa de guerreiro
Hoje eu sou a terra e vou dar-ta como oferenda

à espera II

repouso no silêncio dos teus passos
ouço os sons da estrada que me espera
e estranhamente me descubro
no caminho inverso do vazio
que um dia colei distraidamente
na dobra da bainha dos desejos que tecia para mim

para a mãe

Um bouquet de rosas para ti
- rosas vermelhas brancas
amarelas azuis -
rosas para o teu dia

Suavidade e frescura
das curvas ansiosas da terra
e a exaltação poética da vida
- suavidade e frescura para o teu dia
(…)
Um bouquet de rosas para ti
- rosas vermelhas brancas
amarelas azuis –
rosas para o teu dia
e Vida! – para o teu dia
envolvo-os carinhosamente(…)

Para ti nos cantinhos da alma
http://www.agostinhoneto.org

tenho um vestido garrido de barras de cores

tenho um vestido garrido de barras de cores
onde escondo os sonhos de muitos autores
teatros bandeiras festejos e coroas de flores
recados retalhos conversas vividas sabidas de cor
que guarda histórias e velhos segredos de muitos amores
pecados de almas diversas vestidas, despidas de dor
eu tenho um vestido garrido de barras de cores


tenho um vestido garrido de barras de cores
onde repouso de dia a noite enfeitada de fitas de dor
que clama por glórias, votos achados e desejos vencidos
promessas, vitórias, de amores calados de fés despedidos
pecados, retalhos, conversas mantidas, ao som do calor
que guarda histórias e versos lembrados de tantos amores
onde pouso a vida em novelos de fita de seda de cor
eu tenho um vestido garrido de barras de cores