Este acabei agora mesmo de roubar ao "Citador" que viaja no face.

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Momentos a so(s)

Descubro-me com o estranho prazer da descoberta
Descubro-me com um novo ser de mim que exala cheiro,
emite sons, exibe formas e caminha sozinho.
Estranho-me no novo caminho que percorro agora
com o dedilhar macio de pés em teclas de vida.
Descubro-me com o doce perfume que me envolve as ancas
que embalo no gingar desta nova canção que trauteio
enquanto me descubro nesta descoberta de mim

Ontem senti passar o testemunho

Ontem esticamos o jantar
percorremos o serão com memórias
passamos testemunhos com cheiros das viagens da infância
a dos meus pequeninos agora com voz de grandes
dos que já falam em passado,
em memória na voz do meu mais velho feito homem
Ontem filho, ocupavas já o lugar que vais ganhando
o vi que o mano caçula te ouvia e bebia os teus saberes
Obrigada meu filho.
Ontem senti passar o testemunho

excesso de bagagem

entenda-se, por excesso de bagagem.
bem avaliado entre pretextos de sons
algures interrompido por um poema roubado
feito balanço respiro entre goles de luz
num espaço de tempo carregado de folhas de cadernos de cores
pesados de dores aliviadas de esperanças e equilíbrios de fé
em que o tempo me acena inventando um tímido sorriso
a que respondo com um terno e resoluto bordado de flores
adivinha-se longa a primavera
entenda-se, por excesso de bagagem

Neste dia com Namibiano Ferreira

EMPTINESS

Forjar na polpa das palavras
a sintonia suculenta do morfema
e sair nu cantando lavras
semeadas na cor do poema
ondulando liberdades e savanas
com olhos molhados de punhais
e vozes quentes de calema.


Vivemos um momento
vazio e frio de sentidos
há, como dizem os ingleses,
uma cruel emptiness, um vácuo
castrado de utopias e sonhos
suspensos, ideais na diáspora...


À varanda pálida dos lábios
sequiosos da alma, rosa aflita,
esta infame e crua certeza:

A POESIA
NÃO SERVE
PARA NADA!

Os poemas, como as cartas de amor
do Campos, o tal louco de muitas pessoas,
(ou o tal Pessoa de muitos loucos)
são papéis riscados com letras...


Namibiano Ferreira

e porque é domingo