apetece-me falar-te pai

Parece que tinha que ser mesmo hoje pai.
Sabes pai, acredita que és mesmo o responsável por esta viagem.
Às vezes apetece-me falar-te, sabias?
Do muito que tens visto, que eu sei que me vais acompanhando.
Da mãe com aquela força que conheces bem.
Dos manos que vão estando sempre por perto
Sabes que a pequenina leva a letra o recado que lhe deixaste,
e não me tem largado um único momento...
Também não era preciso dares assim tamanha responsabilidade...
Enfim, tu sabias bem o que lhes estavas a pedir, tu sabias pai.
Não tem sido fácil, mas temo-nos aguentado.
As coisas que eu estou para aqui a dizer...
como se não soubesses de tudo.
Claro que sim pai, eu sei.
Também, na realidade não tivemos tempo para grandes despedidas.
Mas acreditas, que embora no último momento me tivesse agarrado a ti
quase num desespero em forma de grito surdo que me tomou o corpo, a voz e a mente
só travado pelo coro de vozes de mais velhos que me chegou em surdina
numa quase súplica de um deixa-o partir...
te vi caminhar assim, serenamente em direcção à luz,
foi assim pai que te deixei seguir...
faz tanto tempo e tão pouco...
Olha que me têm perguntado, e sabes o que sinto
e que respondo com a sensação que nos deixaste
Que de todas as tuas viagens pai,
na nossa nada ficou por fazer,
nada ficou por dizer, deixaste-nos tudo o que poderias deixar.
Obrigada pai, sinto-te tão perto...
Amo-te tanto... que dói.

suspensa no tempo

fiquei suspensa no tempo
num tempo de nunca acabar
mãe, trouxeste-me de volta a festa
dos nossos almoços feitos serões
os jantares a abrir de novo a madrugada
em que na mesa cresciam as vidas temperadas de tradição
onde eternizamos paixões realizações e combates
fizemos, trouxemos, festa, luta, raiva, dor, amor
em cumplicidades fraternas de colos seguros.
mãe, como sentimos perto os corações que enlaçaste
e voltamos a dar voz ao tempo de família neste espaço
que bom foi estar suspensa neste tempo
que bom voltar ao lugar do tempo
num tempo de nunca acabar
foi mesmo bom estarmos juntos mãe

o pior são as casas vazias...

era suposto ser um caderno de família mãe...
corpos despidos...
assim rematava com um sorriso terno mas comprometido...
eu disse corpos despidos?...filho, é só poesia... e rimos juntos.
quando a minha companheira de viagem se meteu comigo parei para perceber até onde ía esta vontade.
afinal restava o conforto.
às vezes a tocar o arrebatador da vontade de querer
então confidenciei-lhe sorrindo quando senti o toque do gracejo...
...o pior são as casas vazias os dias cinzentos, as portas fechadas. então buscamos alimento. pela poesia... chamamos assim. à que nos alimenta nos habita com os t(s)ons de azuis...
(blues...(soul)ficava bem...)... ok...

apeteces-me

Apetece-me habitar-te
Habitar o odor da tua casa de eternos verões
Trajar as vestes de festa que te pertenceram
Vestir combates e lutas de (s) iguais que já travaste
Apeteces-me, simplesmente apeteces-me.

desencontro

Porque desistes da descoberta meu amor?
Porque apagas a chama e desfazes o caminho sem mesmo pousares a mochila?
A tua tenda, essa não precisa de chão.
Vive em ti entranhada qual mortalha,
embebida em sonhos e desesperanças de fé de razão.
Mas não, não a tomes como peso, ela será apenas a tua terceira mão
aquela que só existe na nossa razão,
a que faz com que entreabras a porta e deixes passar a luz
a que te faz descobrir o que se encontra entre o preto e o branco
e assim retomar a jornada
Depois, poderás dormir meu guerreiro,
e terás a paz da brisa quente do sul

hora de alda

Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.

Alda espírito Santo
in é nosso o Solo Sagrada da Terra, 1978, Lisboa, Ulmeiro