cou... cou... (estou, estou)
e com um jeitinho macio
desliza em passos de anjo
com tudo o que se parecer com uma pequena caixa que cola ao ouvido
vira-se, e acompanha a expressão com a sua linguagem imitando as situações que vê no ecran dos dias, vistas de lá de baixo da sua altura e acima de todos os nossos melhores sonhos. eu embevecida tento acompanhar e solto-me descendo ao solo da paixão. amo-o tanto. chamo a isto um estado de graça e não quero acordar.
hoje teimei em expressar mas até temo não estar à altura de todo este estado de graça.
começa todas as frase com olha! e depois de uma pausa, exprime todas as opiniões que tentamos decifrar enquanto os sois desfilam, o ar perfuma-se de sul, harpas e quissanges exibem a sua expressão maior e enebriam todos os presentes.
se ficasse condenada a um não futuro sem sonhos já teria ganho uns quantos de bónus em momentos de sonho.
isto de ser avó babada é uma chatice de bom!
do António Jacinto - Canto interior de uma noite fantástica
sereno, mas resoluto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado.
ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.
não quero tudo quanto me prometem aliciantes
nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o sesejo dos muitos com que me pareço.
quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
e se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera
que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais.
que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viscosos.
que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado.
e não transportarei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho.
assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!
António Jacinto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado.
ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.
não quero tudo quanto me prometem aliciantes
nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o sesejo dos muitos com que me pareço.
quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
e se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera
que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais.
que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viscosos.
que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado.
e não transportarei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho.
assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!
António Jacinto
afagos de mel
Sinto o afago de um beijo maroto
do vento que dança entre os dedos dos pés
sinto o roçar das asas de pluma
que em dança cruzada me embalam à vez
num gozo de abandono na direcção do céu
marco o compasso, jogo o jogo que quis
na força de peito e gingar de quadris
entro na dança de luz do escuro dos olhos
sinto o balanço e descanso o sorriso
num geito maroto no canto da boca
ainda com fresco sabor a mel
do vento que dança entre os dedos dos pés
sinto o roçar das asas de pluma
que em dança cruzada me embalam à vez
num gozo de abandono na direcção do céu
marco o compasso, jogo o jogo que quis
na força de peito e gingar de quadris
entro na dança de luz do escuro dos olhos
sinto o balanço e descanso o sorriso
num geito maroto no canto da boca
ainda com fresco sabor a mel
só mais uma laçada
só mais uma laçada para acabar esta volta
abertos e fechados, um dois três
sem apertar muito o ponto que pode fechar o caminho
sem alargar demais também, não vá ficar de viés
muito certinho não fica, posso tentar outra vez,
aos pontos soltos dá-se uma àchega
aos nós rebate-se, desfaz-se e rés vez
aos remates chegaremos, numa paciência talvez.
e vamos devagarinho soltando as voltas
de vida na vida de pontos cruzados
enlaçados de fitas feitas grilhetas
feitas grinaldas, feitas c(d)or e coragem
só mais uma laçada, tricotemos
abertos e fechados, um dois três
sem apertar muito o ponto que pode fechar o caminho
sem alargar demais também, não vá ficar de viés
muito certinho não fica, posso tentar outra vez,
aos pontos soltos dá-se uma àchega
aos nós rebate-se, desfaz-se e rés vez
aos remates chegaremos, numa paciência talvez.
e vamos devagarinho soltando as voltas
de vida na vida de pontos cruzados
enlaçados de fitas feitas grilhetas
feitas grinaldas, feitas c(d)or e coragem
só mais uma laçada, tricotemos
caminho para sul
sente-se o cheiro a tinta fresca
as paredes vestem-se de novo
e a luz entra aos borbotões
numa invasão de euforia contangiante
esqueço-me dos cheiros antigos
e as roupas novas de momentos de festa
desvanecem as imagens de registos do luto
impregnando o ar de novos e quentes odores
não procuro porque temo o encontro de desencontros
se me quedo a pele cola-se à vertigem da solidão
então, fixo o pendulo fiel da justa verdade
e a realidade mostra-se na montra colorida dos dias
então disfruto, abraço o novo e desfaço o velho
emprenho de sons numa luxúria de cor
dispo o corpete e experimento o manto de linho
e deleitada deixo-me abraçar completamente rendida
pela doce sensação do caminho para sul
as paredes vestem-se de novo
e a luz entra aos borbotões
numa invasão de euforia contangiante
esqueço-me dos cheiros antigos
e as roupas novas de momentos de festa
desvanecem as imagens de registos do luto
impregnando o ar de novos e quentes odores
não procuro porque temo o encontro de desencontros
se me quedo a pele cola-se à vertigem da solidão
então, fixo o pendulo fiel da justa verdade
e a realidade mostra-se na montra colorida dos dias
então disfruto, abraço o novo e desfaço o velho
emprenho de sons numa luxúria de cor
dispo o corpete e experimento o manto de linho
e deleitada deixo-me abraçar completamente rendida
pela doce sensação do caminho para sul
parabéns mãe!
hoje é o teu dia mãe
e por mais que diga tudo fica muito áquem
daquilo que faz de ti a minha mãe
enlaço as mãos nos poemas de josé gomes ferreira
que encontrei compiladas por Luis Rodrigues
e um bocado ao acaso
um bocado com sentido sentido
vou-te oferecer este bouquet
como que à laia de pensamento
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão, (para ti)
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las. (para ti)
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino. (para ti)
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
como que à laia de um desejo...
Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.
Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.
E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...
(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)
como que à laia de um suspiro...
Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
como que à laia de um desejo...
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
e por mais que diga tudo fica muito áquem
daquilo que faz de ti a minha mãe
enlaço as mãos nos poemas de josé gomes ferreira
que encontrei compiladas por Luis Rodrigues
e um bocado ao acaso
um bocado com sentido sentido
vou-te oferecer este bouquet
como que à laia de pensamento
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão, (para ti)
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las. (para ti)
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino. (para ti)
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
como que à laia de um desejo...
Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.
Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.
E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...
(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)
como que à laia de um suspiro...
Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
como que à laia de um desejo...
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
Se houvesse degraus na terra...com Herberto Helder
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder
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