mãe hoje não posso deixar passar. tenho-me lembrado muitas vezes daquela música que só de si e do pai ouvi. a que ouvias em criança ao luar, quando os avós após o jantar faziam o serão lá fora com o cheiro da terra e as crianças a brincar. eras pequena e juntavas-te aos outros iguais, os filhos dos trabalhadores que vigiavam da possível e indesejada visita do rei da mata, o leão, ao mesmo tempo que se faziam acompanhar das mulheres e suas crianças. de cócoras encaixados como uma carreirinha de formigas enchiam o espaço com a lenga-lenga que atacava e sossegava o coração dos mais velhos. e lá estavas mãe, entre risadas cristalinas a partilhar provavelmente a melhor parte do teu dia que partilhaste connosco e com os teus netos e que vou deixar aos meus netos como sempre vocês nos ensinaram:
calundginge, seiá seiá,
solama nhõdukoleté
usandgé ua téka oku... tianwa
usangdé ua teka oku... tianwa
formiga, arrasta-te arrasta-te (e andavam em serpentina a rastejar de rabo em cócoras)
esconde-te só aí que veejo-te...
a lenha partiu ali, .... partiu (trás) e caíam todos para o mesmo lado
a lenha partiu acoli... partiu (trás) e caíam todos para o outro lado
o rodrigo é um leão
sexta feira renovei a alma. a filha presenteou-me com o privilégio do bálsamo que é a voz licorosa doce forte e macia, da ana a encher a sala preto e prata. doze focos enebriavam numa névoa os músicos e a sinfoneta dáva-lhes o colo aconchegante que os fazia sobressair. a ana entrava e saía apresentando e surpreendendo a cada nova ou já conhecida sonoridade ou letra. ficavamos presos e tentados a acompanhar apenas com pequenos movimentos dos lábios pois a nossa voz sufocada nem se atrevia a sair presa pela emoção e momentos de plenitude e mesmo extase. os convidados cumpriram, mais o argentino confesso. lembrou-me o palma que me enche as medidas.
o rodrigo é um verdadeiro leão.
o filhote partilhou comigo esta aventura.
obrigada.
o rodrigo é um verdadeiro leão.
o filhote partilhou comigo esta aventura.
obrigada.
subscrevo uma reflexão matinal calma sobre as europeias
acordei e fastei um pouco a cortina para espreitar a paisagem foi quando dei com esta nova personagem bastante interessante, diga-se. falava no que sublinhava ser, uma reflexão matinal calma sobre as europeias. ouvi-o atentamente. tinha formado uma opinião ontem àcerca dos resultados da aventura. afinal havia quem partilhasse e de forma clara, da minha opinião e mais, que expusesse os meus pensamentos de forma genial. claro que aproveitei e mandei logo a missiva aos companheiros mais próximos.
resultado esclarecedor, a maioria engordou com as fatias gordas da actual minoria vencedora.
a maioria emagreceu perdendo fatias para as pequenas minorias vencedoras. continuamos ricos e mais fortes agora há que não perder o rumo nas próximas estações ou apeadeiros. se calhar nem valerá a pena fazer descer alguns passageiros porque a entrar gente nova ou nova gente nada se acrescentará muito pelo contrário só fragilizará. os novos não terão nem tempo para abrir o farnel.
resultado esclarecedor, a maioria engordou com as fatias gordas da actual minoria vencedora.
a maioria emagreceu perdendo fatias para as pequenas minorias vencedoras. continuamos ricos e mais fortes agora há que não perder o rumo nas próximas estações ou apeadeiros. se calhar nem valerá a pena fazer descer alguns passageiros porque a entrar gente nova ou nova gente nada se acrescentará muito pelo contrário só fragilizará. os novos não terão nem tempo para abrir o farnel.
a cunha
estava ontem na pausa a jantar e apanhei mais ou menos isto do passageiro que estava na outra cabine numa amena cavaqueira. era o Júdice mais um consultor e outros que não registei, mas esta ficou. tinha a ver com corrupções e corrupçõesinhas. as grandes e as pequenas se se poderá rotular assim. aqueles que se viciam no "jeitinho", não pagam mais do que um imposto dizia o Júdice. é que por vezes até pagam o imposto por coisas a que têm direito e a que teriam mesmo sem pagar. pela boa disposição, amabilidade, celeridade, competência do servidor (do estado por ex:) o servido (cidadão) paga imposto... e nem seria preciso. deixou-me a pensar durante o resto da viagem, afinal a cunhasinha não será mais que um imposto.
gestão conceptual
entra um fulano com um cartaz, diz que entra numa corrida mas não defende o ideal, pois a vantagem está em entrar primeiro, custe o que custar. então acotovela todos os outros, empurra, pisa, resmunga, berra, mas o que importa? todos fazem o mesmo... fazer figura? ninguém repara, já é normal, o que interessa é confundir. não interessa para onde é a corrida, o que levo na bagagem e se vai alimentar as almas. também já ninguém quer saber dos conteúdos. interessa mesmo a forma. vertical, linear, profile, minimal, glamour, e outros afins. gestão conceptual o alimento do espírito pobre ou do pobre de espírito. tudo isto porque é tempo de campanha(ã)
amigo ary
no dia em que me cruzei com ele tive a certeza de que nunca me abandonaria. as palavras soavam bem. tínhamos sentimentos de palavras comuns, assim se encontra (faz) novos amigos. assim fiquei sua amiga como tantos que ele tem sem conhecer. assim, amigo ary a maior parte dos teus recados passei-os aos filhos e aos amigos mas digo-te que este, eu repeti muitas vezes:
SONETO PRESENTE
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
SONETO PRESENTE
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
De que cor é o silêncio?
Tia, diz a pequenita do escuro brilhante dos seus olhos, bem em cima dos seus seis anos, e com a esperteza de quem já se passeia de Magalhães; - de que cor é o silêncio, tia? Olhei-a, e deixei escapar a resposta que mais se aproximou do que mais perto se encontrava no meu baú de memórias: - silêncio é de ouro, ouro, é ouro respondi. Não tia, retorquiu ela. É verde! Afirmou com tal segurança, que me deixou estupefacta. Verde? interroguei. Sim tia, é que por exemplo, explicava ela, a tulipa é vermelha, mas se virmos bem, também é verde, o caule é verde, mas não fala, está calado, como o verde do campo com as flores coloridas. Então, o silêncio é verde!... Olhei-a com os olhos arregalados, a que me respondeu com um sorriso rasgado e zombeteiro; - Não fui eu que inventei, ouvi contarem esta história de um livro, quando fui no outro dia a uma visita à biblioteca. Respirei de alívio, a miúda era normal.
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