Viagem Interior - momentos - o meu filme

Deixo contigo as memórias
 







No teu dia


Frágil e forte
teimosamente agarras as flores e o perfume da vida e contrarias o tempo
frágil e forte seguras o leme
E vences os dias as noites os mares e os desertos
Timoneiro, marinheiro, da glória do tempo que contrarias ...
E na garra, na luta, na febre de viver
Na dor, na sede, e na raiva de cumprir
Os dias as noites os mares e os desertos
Agarras as flores e o perfume da vida
e te fazes forte, te fazes frágil
Doce, amargo, deus, herói e viandante
Senhor do tempo que é teu



2019-02-26

não pedi o sol


Não meus filhos, não pedi o sol

Não meus filhos, não pedi a lua

Só falei da vontade de ter também um papel

Daqueles que inventaram e dizem que és o que já és

 

Perguntaram então porque só agora

Perguntaram também, porquê tão tarde

 

Então respondi que o papel que diz que sou o que já sou

Não me faz quem sou, porque já sou.

E assim, não importava quando tinha que ter o que já tinha

Não importava o porquê de ter de ter o que já tinha, para ser o que era

 

Falei-lhes então do sol, que guardava a fogo dentro do peito

Das chamas de acácia, a deixar sair o perfume rubro pelos poros

Dos sons e cheiros que povoam as nossas estórias de vida

Da pele da terra que se nos colava ao corpo e vos deixei de herança

 

Das marcas e contornos das notas e timbres de cor

Dos licores e aromas quentes que me vinham das raízes

com que exalava a vida com volúpia e me sustentam

Dos sabores brandos de bálsamo com que vos fiz ver o mundo

 

Responderam então que cheguei tarde

Porque não havia, nem rei nem rainha, nem deus nem deusa, soba quimbanda ou matriarca

que pudesse conceder tal dádiva.

Não o sol, não a lua, mas algo superior

o papel que agora inventaram que diz que sou o que sou

 

Só que ninguém sabia ainda

Que eu tinha herdado da terra o poder maior

De guardar na alma o sol rubro de acácia resgatado a todos os dias felizes

E a lua de prata em notas de azul sobre o corpo de todas as noites iluminadas

 

Assim vos deixo meus filhos esta coroa de glórias

Sagradas no tempo do nosso império de memórias

 

E quando chegar esse tal papel, guardem na memória temporária

 

 

 
Ontem recebi este presente que me encheu a alma com superagudas únicas
linguagem de força e doçura, tal como no amor
o bom sabor do improviso executado com mestria no uso de todos os instrumentos
Arturo tomou conta de uma sala grande e de todos os corações
e levou-nos para o palco com ele


Ontem no CCB







Não travarei as margens e propor-lhe tréguas
Apenas esperarei sem luta que se deixem vencer

Vou travar a asfixia, a morte lenta e impotente,
Que assiste sem saída à voz implacável e forte
Queda e incapaz, com olhos vestidos de medo
Ante o brilho trocista de águas fartas e sussurrantes

Não, não travarei as margens
Numa luta inútil duma guerra que não pedi
Vestir a mortalha enleada no lodo de águas turvas 
E mergulhar no fundo escuro sem fundo duma brancura sem fim

Quero sossegar na mansidão das águas brandas
Procurar o lago manso de águas claras
E deixar-me embalar até adormecer
nos finos fios da luz do som ondeante do seu m(c)anto

Não, não travarei as margens, o encanto,
Apenas esperarei (s)em luta que se deixem convencer








dizes e eu entendo

  
dizes...


RENDIÇÃO


O teu sorriso

ilumina tanto como o sol
que cai sobre o mar
e torna os fins-de-dia, de lá,
de uma invulgar e constante beleza.

O brilho dos teus olhos

rasga de luz a selva densa, misteriosa
e de encantos que os teus cabelos representam.

A tua pele

tem o tom de uma das fortes cores
com que a Natureza pinta o teu sítio.
Ela sabe o que faz; 
e eu, rendo-me em ti, à sua sabedoria.


FC




eu entendo.


Deixo-me prender ao encanto que cantam os teus olhos
que veem para além do percetível aos comuns

Deixo-me contagiar e juro contigo atravessar barreiras
Então me ilumino e navego outros caminhos
que juntos traçamos em novas descobertas  

Segura, tomo o leme e agarro a chama da força da terra
que que trago comigo colada à pele
bebo a cor da seiva ardente, licor  de vida, feitiço e alimento
E queimo o horizonte com a luz dos meus olhos

Enfim, com sorriso mais rasgado  desbravo a selva densa
dos trilhos que me esperam


EC