Na ponta dos dedos da minha pele em chama o encanto meigo do sossego que me chama

Sinto o canto das águas mansas, quando os dedos da minha pele folheiam as páginas enrugadas do brilho do teu corpo, basto do vigor de tantas vidas plenas de saber.
Na embriagues do calor do leito banhas-me com o sabor do encanto do sorriso de cada linha que se me prende em cada poro e me faz estremecer.
Embarco na aventura e desafio o jogo, o fogo, na força, num quase grito de querer, desembainho a espada,
E tu invades-me na ternura, a torrente mais madura, num murmúrio de um choro, quase manso de prazer.
Embalo-me no canto doce dos pássaros que rasa o manto áureo que me cobre a noite negra e desponta a madrugada.

Quero adormecer no torpor das águas claras 

PARA TI


Que se acenda a escuridão
e venha uma luz
que entenda de saberes e de vida.
Chegou alguém que vai passar
e por estes lados vingar:
fazer do mal o bem,
da cegueira a visão
e da tristeza verão.
Passa mulher
e dá-te para além de ti.
É esse o teu destino
e o dos que sob as tuas asas se abrigarão.

Que o tempo te seja longo!                                                                         

Fernando Carvalho                                                                                                                                                      26 Setembro 2014
Inventem-se afetos
recados, pecados, aconchegos, desejos
à forma à luz de cada gesto
sei apenas que te darei em cada dia
para que guardes ao teu jeito
o regaço onde te acolho
este leito em que te deito
para cura dos teus escolhos,
o quadro onde repousa toda a luz do meu sorriso,
A moldura do meu peito

É loucura soletrar-te
Vestir o caldo insano de querer-te
Na insana e estreita via da palavra
Onde cala o gosto grito de perder-te



Então vou apenas murmurar-te

E ter-te assim no abafo de um sufoco

No folego da longa eternidade de um momento

Pousado nos lábios entreabertos de desejo


Agora já certa vou apenas sussurrar-te 
No andamento das curvas desta estrada
Compasso nas notas breves a contratempo
Sei que estou segura no silêncio que conheço


exercício de (dor) amor


Doi-me a sorte de te ser
sem o dote de te ter

Doi-me a tua vã presença
de tu estares e não te vêr
Doi-me a tua sã pertença
de te ser e não te ter

Ó chão meu, terra sangue,
quente amargo e bem querer
Dá-me o abraço o colo abrigo

fecha a porta e despe o luto
que entre o querer ir e o querer ficar
mora o espaço desta dor,


Ó luz minha, casa escura
quero vêr quero viver
quero estar quero-te ter

quero o espaço deste amor
Corre-me um rio
A alva aurora, malva incenso
Seiva, menta, mosto, encanto intenso

Fere-me a luz
A lava ardente, o vinho amargo, o doce fel

O sangue que me escorre, pulsa e veste
A alma,  a chama que me dest(p)e

Corre-me um rio
São bilros.
Só podem ser bilros.
 
 
Este emaranhado pensamento
Num perfeito encadeado de momento
No repouso no rebolo de pano tosco
Chão de vida, grossa palha ou algodão
Soberbo corpo, fina malha em veste de cambraia
 
Existência que repousas a cabeça na almofada
Assente no chão duro, estrado, forma,
base, casa, cama, tábua, enredo, armada
alma à altura do trabalho nobre e fino
nasces das mãos da pequena rendilheira
 
É a vida que cresce e corre no rebolo deitada
Sobre um lençol mansamente perfurado
 
No pique se desenha a vida em pequenos sulcos
Onde se apraz a rendilheira
Na base se espeta os alfinetes à medida da lida
Onde se deleita a rendilheira
No palco em que manobra as linhas, na dança, no jogo, no fogo cruzado
 
É a seda pura, o fino ouro, a doce prata, ou alvo linho
Na perfeição da geometria do complexo e delicado bordado
 
E em gestos simples avança a rendilheira
Jogo de mestria aos pares em contornos e volteios
torcidos, entrançados, movimentos compassados
alternados, rotativos, ritmados e cadentes
nos fios cruzados do destino das esferas
 
É a vida que surge das mãos da rendilheira
no rebolo, no pique, na tela, cartão de cor de açafrão,
no fogo, da teia, na dança dos pares, de linhas em jogo cruzado,
 
A renda, a pena, a graça ou luxo, da vida que enfrenta as feras
 
porque é de bilros
porque só podem ser bilros