no 27 de abril elásticos invisíveis que prendem o quintal ao cafezal



Claro que ninguém conseguiu prender a lagrimita que saltava do peito, mais do que dos olhos. Esses,  bebiam sôfregos a beleza do momento onde eras rainha, enquanto escutávamos os cânticos de todo o cerimonial que te comprometia diante de todos os que quiseste juntar para testemunhar o teu ato solene que marcava a tua nova etapa. 
O sol quase se encolhia diante do calor que vocês irradiavam e nos aquecia. 
Toda a beleza envolvente cuidadosamente escolhida, abraçava-nos apesar do vento que diante dos deuses dos elementos teimou também assistir e não quis perder o momento. 
Ficamos então presos à belíssima história dos elásticos invisíveis de que o tio fez memória e  também ao que se fez sentir no emocionante sentido fraterno da história que se seguiu e que nos trouxe a partilha de novos laços do teu par, que passaram a ser também memória.
Senti então a firmeza que me falava a história quando abri o portão de onde irradiava já o cheiro da memória. 
No pequeno campo de prata que tinhas emoldurado para cada um, estendia-se um pequeno hectare do cafezal que preservaste e que fizeste questão de passar, falando assim ao coração, mesmo àqueles que ainda não tinham podido fazer parte desta história que tornaste de todos. 
Foi aí que os elásticos invisíveis me falaram que a força que tinham vinha de ti.
Já só restávamos meia dúzia para um brinde que coube numa só mesa, ao vosso brilho feito nosso, quando o mais velho do teu par falou com propriedade, enquanto os olhos meigos da esposa o abraçavam na cumplicidade, que o que mais gostara, foi ver família, mesmo família.
A nós aquecia o coração, de ver passado o testemunho.

aqui

desembainha a espada do fogo da fé
que te enche o corpo e te escorre dos olhos
despe o manto que te veste o palco de glórias
e cobre-me com o teu corpo ainda em febre de vitórias
tenho frio...
quero adormecer

na viagem a memória de um espaço para ti


Hoje um teu dia de todos os dias teus que generosamente fizeste meus. E de novo aquele aperto no peito... falta-me o abraço.O olhar cúmplice. Já tenho o vestido, ias gostar de ver. Deixa lá, eu aguento-me. Aprendi a ter-te assim, contigo, sem ti... Tenho saudades...

queria

queria cobrir-te de rosas
com as pétalas de pele
vestidas do mais belo negro da noite de mim
coladas a ti uma a uma
e ungir-te com o adocicado perfume quente
no ardor da união dos nossos corpos

queria banhar-te a alma
com a ternura do rio caldo e calmo
repleto e prenhe da loucura que me transborda 
e inundar-te assim no calor tranquilo
contido da fúria da ânsia de querer-te

coroar-te enfim com o mais belo sorriso que me pedes

porto igual a si mesmo


Não será demais repetir
que gosto deste teu porto
que faço porto de abrigo
que me apura os sentidos
e renova o paladar

este porto que respira
que liberta do seu corpo 
a harmonia da paleta
bouquet aberto sem decoro
sorvos que se bebem e respiram
se tragam e que persistem
em passo curto ou prolongado,
buscando o aveludado
o equilíbrio, a acidez,
num corpo leve, médio ou pesado,
cedendo à pura altivez
da doçura dum seco ou doce
dum sabor intenso ou fraco,
de um frutado, ou de um floral.

torrente de rio, mar aberto,
profusão de pálidos,
intensos, profundos, 
apagados, brilhantes
orgia tons de tintos, vermelhos, 
rubis, violáceos, roxos, telha... 
brancos, amarelo pálido, 
esverdeado, âmbar, dourado
a sobressair os aromas
a apurar o paladar
a harmonia, fruta intensidade, madeira, maturação.
maturado, velho intenso, 
fruto carne, madeira forte
despido com o olhar
inalado com os sentidos
e apurado paladar

dourado frutado, tons de pêssego, 
damasco, maçã, frutas vermelhas
framboesa ou ameixa, amêndoas...
timbre tons de amadeirado
delicadas notas de baunilha, 
carvalho, defumado...
caramelizado em toques de mel, 
manteiga, caramelo, delírios florais

deste porto sentido
deste porto consentido
deste porto com gente dentro
igual a si mesmo
com cores roubadas ao quadro
puxadas detrás do véu da névoa
mistério que se adivinha
e serve de manto macio que me alonga os dias 
desperta os meus sentidos
e me prolonga o prazer

sim, gosto,
deste teu porto
igual a si mesmo
igual a ti mesmo

Cuidarei, na Contagem dos Dias


Com o desvelo de Frigga
Cuidarei de cada fio do teu cabelo
Assim o escutes no olhar,
Quando liso mar se transformar.

Casa farta, afago quente, sombra meiga
Cuidarei, na Contagem dos Dias

Com a beleza de Freya
Cuidarei do corpo retrato, de vida preenchida
Composto, retocado, trabalhado, em filtros coloridos
No tempo, parado, arrastado,
jogo de câmara em segredo conquistada
Assim o tome no decisivo momento, instante perfeito
matéria expressão colhida
sábia abertura, no septo de vida, luz da alma,
Cuidarei, na contagem dos dias