desembainha a espada do fogo da fé
que te enche o corpo e te escorre dos olhos
despe o manto que te veste o palco de glórias
e cobre-me com o teu corpo ainda em febre de vitórias
tenho frio...
quero adormecer
na viagem a memória de um espaço para ti
Hoje um teu dia de todos os dias teus que generosamente fizeste meus. E de novo aquele aperto no peito... falta-me o abraço.O olhar cúmplice. Já tenho o vestido, ias gostar de ver. Deixa lá, eu aguento-me. Aprendi a ter-te assim, contigo, sem ti... Tenho saudades...
queria
queria cobrir-te de rosas
com as pétalas de pele
vestidas do mais belo negro da noite de mim
coladas a ti uma a uma
e ungir-te com o adocicado perfume quente
no ardor da união dos nossos corpos
queria banhar-te a alma
com a ternura do rio caldo e calmo
repleto e prenhe da loucura que me transborda
e inundar-te assim no calor tranquilo
contido da fúria da ânsia de querer-te
coroar-te enfim com o mais belo sorriso que me pedes
porto igual a si mesmo
Não será demais repetir
que gosto deste teu porto
que faço porto de abrigo
que me apura os sentidos
e renova o paladar
este porto que respira
que liberta do seu corpo
a harmonia da paleta
bouquet aberto sem decoro
sorvos que se bebem e respiram
se tragam e que persistem
em passo curto ou prolongado,
buscando o aveludado
o equilíbrio, a acidez,
num corpo leve, médio ou pesado,
cedendo à pura altivez
da doçura dum seco ou doce
dum sabor intenso ou fraco,
de um frutado, ou de um floral.
torrente de rio, mar aberto,
profusão de pálidos,
intensos, profundos,
apagados, brilhantes
orgia tons de tintos, vermelhos,
rubis, violáceos, roxos, telha...
brancos, amarelo pálido,
esverdeado, âmbar, dourado
a sobressair os aromas
a apurar o paladar
a harmonia, fruta intensidade, madeira, maturação.
maturado, velho intenso,
fruto carne, madeira forte
despido com o olhar
inalado com os sentidos
e apurado paladar
dourado frutado, tons de pêssego,
damasco, maçã, frutas vermelhas
framboesa ou ameixa, amêndoas...
timbre tons de amadeirado
delicadas notas de baunilha,
carvalho, defumado...
caramelizado em toques de mel,
manteiga, caramelo, delírios florais
deste porto sentido
deste porto consentido
deste porto com gente dentro
igual a si mesmo
com cores roubadas ao quadro
puxadas detrás do véu da névoa
mistério que se adivinha
mistério que se adivinha
e serve de manto macio que me alonga os dias
desperta os meus sentidos
e me prolonga o prazer
sim, gosto,
deste teu porto
igual a si mesmo
igual a ti mesmo
Cuidarei, na Contagem dos Dias
Com o desvelo de Frigga
Cuidarei de cada fio do teu cabelo
Assim o escutes no olhar,
Quando liso mar se transformar.
Casa farta, afago quente, sombra meiga
Cuidarei, na Contagem dos Dias
Com a beleza de Freya
Cuidarei do corpo retrato, de vida preenchida
Composto, retocado, trabalhado, em filtros coloridos
No tempo, parado, arrastado,
jogo de câmara em segredo conquistada
Assim o tome no decisivo momento, instante perfeito
matéria expressão colhida
sábia abertura, no septo de vida, luz da alma,
Cuidarei, na contagem dos dias
na plenitude dos dias
Ficam, o som de kissange a embebedar o ar
o odor forte do café em rodopios a penetrar as paredes
e a cobrir a pele num manto escuro e quente.
O som cristalino da voz pequenina a encher o ar
de borboletas coloridas matizadas do ouro
roubados dos fios do sol que se esgueiram pela vidraça.
O meu triângulo de força que arranquei do ventre
e cá fora abraçou o mundo e me dá a plenitude dos dias.
Ficam a conquista e a vitória da vida de cada segundo vivido
na certeza de que o dia é uma noite iluminada
Ontem nove do nove de dois mil e doze o dia 85 de joaquim pessoa
A minha mãe continua saudável. Já faleceu, mas continua saudável. O amor é feroz, comovente, permanentemente provocador. E, dele, sentimos tanto a falta quanto a falta das nossas mães. Elas são as trabalhadoras da coragem. E da mais profunda dignidade. São as grandes personagens femininas que merecem o óscar do filme das nossas vidas. E apesar de serem sempre nomeadas, raramente chegam a receber o troféu.
Vivemos um dia de cada vez. E quando já não temos mãe, vivemos sem mãe um dia de cada vez, o que é dolorosamente pior. Quem nunca conheceu a mãe, não chegará nunca a conhecer-se. E também nunca será reconhecido pela vida porque a ligação que temos com ela é feita através do cordão umbilical. Que nunca chegamos a cortar. Esse acto físico não é mais do que uma ilusão. É por isso que um pai nunca será uma mãe. Pode ser como uma mãe, mas não será a mãe. Nem com esforço. Nem com dedicação. nem com convicção. Nem com amor. Foi isso que a minha mãe me ensinou sem nunca me ter dito nada. E é por essa razão que quero agradecer à minha mãe a possibilidade que me deu por escrever, hoje, este texto.
Joaquim Pessoa,In Ano Comum
Joaquim Pessoa,In Ano Comum
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