no teu mar


Ouço-te no teu mar
Numa leda canção de outros tempos de amar
E escuto-te no refrão de memórias fortes
Do travo amargo do sal que queres apagar
E quedo-me no (re)verso do sabor do tom que lhes queres dar

Assim te escuto enleada e rendida
Na doce toada do tecido macio das ondas reflectida
Com novos reflexos fiados de um ouro renascido
Neste mar sempre mistério, leito, chão desconhecido
Que tão sabiamente conseguiste reinventar

E assim me achei colada ao ventre do teu mar
Quando decidiste fiar de novo e teimosamente
a rede da tua força de acreditar onde estarei  aqui e sempre
Certa inteira e segura na firmeza de te acompanhar

Com Joaquim Pessoa

Dia 162.

Estou sempre à espera do inesperado. Assim, a dor não dói. Mesmo quando dou a mão a alguém e esse alguém a morde. Faço tudo para ser melhor que eu, ter uma vida intensa mesmo a dormir, separar o bom do bom e, com a parte que escolho, fazer melhor. Tudo é interessante, mesmo o que não é interessante, e o interesse está na descoberta. Temos que nos inadaptar à vida, vamos a isso, tentar cumprir as expectativas, mas não aquelas que esperávamos. Eu gosto disso. e isso conta. Meio irmão contra mim, mau irmão de mim, não consigo emendar um dia entre Janeiro e Dezembro. E ainda bem.
Esta coisa de ser mortal, de ser falível, é a minha afirmação e a minha doença. o que resta, são paliativos e a sua busca. Não sei mudar-me, não me quero mudar. Entre proscritos e idiotas, um proscrito. Odeio a subtileza dos idiotas. Falo sempre para mim quando falo com os outros. E dos outros não falo. Faço de conta. Para comermos todos juntos. Como iguais.

Joaquim Pessoa
Ano Comum

sigo-te

Não poderei fazer o teu caminho
Observo-te apenas e asseguro-me da tua destreza
Prendo por vezes o escuro da terra dos meus olhos, que me irradia o rosto
e aponto-o  na tua direcção a cada sinal de desiquilíbrio
tentando apenas iluminar o espaço, desviar os escolhos, minorar a dor

não procuro caminhar sobre as tuas marcas
apenas mostrar-te o meu cajado que me ampara a já longa caminhada

Boa tarde meu amor, segue as estrelas e conserva-as para os que te seguirão
pois eles aprenderão a eternidade

madrugar

Vou madrugar
E calçar as nuvens macias que aconchegam o céu
Caminhar em silêncio no caminho das palavras
Bordadas em fios finos de luz nos desenhos do destino que tracei
No cântico morno que me adorna o corpo

Vou madrugar
E beber de novo a brisa
Apoiar os cotovelos no beiral dos sonhos
Afagar o sufoco
Alimentar o torpor do corpo, mimar a alma
Resgatar o meu império, meu alimento, a poesia
Nascer de novo com o dia

Vou madrugar e parir um novo dia

sinto o sabor do teu mar a ferver-me nas veias


Sinto o sabor do teu mar a ferver nas veias do labirinto do meu corpo

Sinto o fervor do teu mar no impulso do desejo de te ter

Sinto a acalmia do teu mar no doce toque do s(t)eu (en)canto

Feita voz, cântico, balada, liturgia, encanto que me enternece

Envolve, embala, devora, encanta, sossega e entorpece

Sinto a brandura do teu ser num vulcão que me desassossega

E entrega a uma orgia de veludos de corpos e licores de seiva

Com odores de espanto e paz que me deleita

Sinto, sinto o sabor do teu mar a ferver-me nas veias

aqui onde o calor não dorme, vive a arte da espiritualidade




Aqui onde o calor não dorme
Deslizam figuras de luz a preto e branco
Vestidas com a solenidade e beleza de alma pura
Assim as vejo, assim as aprendo e apreendo
Identidade escolha e razão

No passo lento e forte que acompanho
Da beleza e porte que a todos confere por igual
procuro escutar os corações nos belos olhos de mistério que desfilam
na névoa de poeira de ouro vivo que os ilumina

Dos géneros, a brancura alva do porte se revestem
Os que habitam a kaba negra que sem pejo exibe a negrura da pureza
Casa segura coberta das mais caras jóias  invisíveis aos olhos
Inteira da sua liberdade aprendida na fé dos seus ancestrais

Aqui onde o calor não dorme
E o ouro negro granjeou a tela de todos os sonhos
Numa paleta onde o negro e branco se destaca
Da harmonia onde o velho o novo se cruzam  e entrecruzam 
em malha feita
de mestria no padrão geométrico da arte mais elaborada nascida da raiz.

Aqui onde o calor não dorme
Aprendo o padrão infinito que se estende para além do mundo visível e material,
Génese e alma do feito que parte do simples perfeito ao complexo em constantes repetições
regra, preceito, definição,
Pedra de toque do infinito, natureza abrangente da criação.

Aqui onde o calor não dorme
descubro paz honra orgulho e nobre aspecto
silêncios de grito de ser e de respeito
A arte da espiritualidade

Diz-me, Amor, como Te Sou Querida


Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas