vesti a minha casa para ti


Vesti a a minha casa para ti
E em todos os quartos coloquei pedaços meus.
Em quadros, tapetes, retratos, tecidos e formas de valor
cunhei com escopro, buril e fogo, a firma forte do meu amor.
Para ti, desenhei nas cores todos os sonhos sonhados
em formas de arco-íris ainda não inventados
e em todos eles deixei recados.
De cada sonho lembrado e criado para ti, a minha casa vesti,
e neles teci a luz dos sons vibrantes e cheiros da terra
que vinham de mim.
Para cada dia, meticulosamente, a minha casa eu vesti, 
da paleta que inventei para ti.
E docemente, ela te olhava com o brilho do fundo do escuro 
dos meus olhos e alargava o espectro que se agarrava languidamente às paredes do corpo da casa
que eu vesti para ti.
Na cor da minha luz eu vesti a minha casa para ti.

sorrir de novo para mim

Vou,
parar por aqui e vagarosamente
descansar um pouco, fechar os olhos
aproveitar até, e sem ver os escolhos
gole a gole e demoradamente
sorver o tempo que meus filhos tomou

Vou,
Sorrir de novo e mansamente
ficar quieta encher o copo e ganhar alento
aprisionar o génio e com algum talento
trago a trago e sorrateiramente
resgatar meus filhos que me levou

Vou,
Ficar sentada e sossegadamente
Ajeitar o corpo, agitar o copo, tomar o cosmos
Aceitar a trégua e travar a luta contra cronos
Receber meus filhos que me tirou

Vou
tomar meu tempo de novo por inteiro
traçar destino formar conselho, instruir a norma
acolher meus filhos um a um, abraçá-los cada um em sua forma
Feita luta, dor, coragem, esperança até
Força, glória, pátria, berço, amor e fé
Junto ao peito prendo à alma, meu fado, meu corpo,
meu temp(l)o verdadeiro.

o meu espaço


Vou soltar as rédeas do espaço que me habita
e mergulhar no ventre da casa que fiz minha,
abraçar a causa feita liberdade que tomei
quando ao alcance da terra feita corpo e espaço de mim
abracei a luta e gozei um mundo que fiz meu

vou-te fazer a corte


Vou-te fazer a corte
Fazer-me teu dote e jogar á sorte
emprestar-me sem pejo e dar-te glória
fazer-me teu trunfo e tua vitória
e conte ou não conte a memória

Vou-te fazer a corte

Vou-te fazer a corte sem recato
desfazer o embrulho, enfeitar o corpo e  sem rubor
refinar o porte desfazer o laço e em desacato
desferir o golpe que corte sem temor
as rédeas do tempo que é tempo de amor

Vou-te fazer a corte

Nos triunfos teus saborearei os meus
As glórias tuas dedicarei a Deus
Os doces momentos que vivam então
n o espaço inteiro da minha razão
Vou-te mesmo fazer a corte

hoje com Neto

Mussunda amigo
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
 Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

 O ió kalunga ua mu bangele!
 O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

 O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!

 (Sagrada esperança)