vou-te fazer a corte


Vou-te fazer a corte
Fazer-me teu dote e jogar á sorte
emprestar-me sem pejo e dar-te glória
fazer-me teu trunfo e tua vitória
e conte ou não conte a memória

Vou-te fazer a corte

Vou-te fazer a corte sem recato
desfazer o embrulho, enfeitar o corpo e  sem rubor
refinar o porte desfazer o laço e em desacato
desferir o golpe que corte sem temor
as rédeas do tempo que é tempo de amor

Vou-te fazer a corte

Nos triunfos teus saborearei os meus
As glórias tuas dedicarei a Deus
Os doces momentos que vivam então
n o espaço inteiro da minha razão
Vou-te mesmo fazer a corte

hoje com Neto

Mussunda amigo
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
 Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

 O ió kalunga ua mu bangele!
 O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

 O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!

 (Sagrada esperança)

lírio e tulipa em chão escarlate

Porque me guardais este fado?
Dizei-me senhor meu amado

Assim vos jurarei que em outubro,
pintarei toda esta vista, de chão de fogo rubro,
de lírios brancos e tulipas, dum raro veludo negro
de caixilho encontrarei, cortina de denso cedro

Assim vos digo, e assim farei, assim vai acontecer.
Acreditai podeis crer podereis mesmo conhecer
Pois em outubro assim vai ser, se te decidir pertencer

Verde pino quão ditoso, porque me separais o olhar,
serrais fileiras inteiras e me forçais a aqui estar?

Sombras negras de vestes brancas e braços erguidos aos céus
serão anúncios de meu fado, lembrarão um sonho meu
Corpos de plumas-de-seda, envoltos em finos véus
testemunhos do destino que o céu me concedeu

Pois um novo arco-íris, de um país inventado
surgirá no horizonte assim mesmo emoldurado
paleta de duas cores em direcção ao firmamento
farão as vozes dos céus, do novo conhecimento

Lírio e tulipa se erguerão acima do chão escarlate
mostrarão sua grandeza de gema de grã quilate


um futuro em notas soltas

recolho os despojos de pedaços de mim
dispo resoluta o peso da cota de malha
da dor e pena profunda de longa e dura batalha
escolho e dito as tréguas e declaro o fim

Já refeita e bem ciente lembro a intenção
e com flores frescas acabadinhas de colher
que a mãe natureza fez questão de me oferecer
bordo a nova pele em toda a sua extensão

E ensaio agora o futuro em notas soltas
que se esgueiram livremente de dentro do meu peito
e quase sem querer eu ganho o jeito
trauteio acompanho e apanho-lhe as voltas

Tomo os campos num longo e terno abraço
abro o sol e risco alegre o espaço

pinto a festa e arrisco lançar o laço
retoco um aro-íris no meu regaço
derramo e esbanjo a luz na areia branca
aconchego com ternura o verde mar
abro as asas leves e decido voar

no mapa do teu corpo

no mapa do teu corpo procuro o olimpo
num espaço apagado de tempos de dor
e de olhos fechados invento o amor

recorto enseadas, baías, regatos e moldo a paisagem
planto caminhos, ergo cascatas, desenho a viagem
e resgato qual Héstia, meu fogo sagrado em águas profundas,
invento-me Réia e me ensino o caminho de terras fecundas.

no mapa do desejo, escuto Eros e me aprendo de novo
na terra quente experimento, guardo, aprendo e renovo
e me vejo inteira e abro meus olhos,
recolho minh'alma de debaixo de escolhos

traço a traço
lego a Ares os meus passos calcados
colados às marcas de passos passados
onde rainha dum paço 
em que posso sem medo dizer
vivi soberana num palco a que quis pertencer
sem fados, sem fardos, sem sombras, rasuras,
repleto de luz vinda de mim, escapando clausuras
feita fortuna, feitiço, loucura, vitória, saber
e volto a (a)riscar o caminho de volta
na pele do meu manto de terra que sempre quis ter