recolho os despojos de pedaços de mim
dispo resoluta o peso da cota de malha
da dor e pena profunda de longa e dura batalha
escolho e dito as tréguas e declaro o fim
Já refeita e bem ciente lembro a intenção
e com flores frescas acabadinhas de colher
que a mãe natureza fez questão de me oferecer
bordo a nova pele em toda a sua extensão
E ensaio agora o futuro em notas soltas
que se esgueiram livremente de dentro do meu peito
e quase sem querer eu ganho o jeito
trauteio acompanho e apanho-lhe as voltas
Tomo os campos num longo e terno abraço
abro o sol e risco alegre o espaço
pinto a festa e arrisco lançar o laço
retoco um aro-íris no meu regaço
derramo e esbanjo a luz na areia branca
aconchego com ternura o verde mar
abro as asas leves e decido voar
no mapa do teu corpo
no mapa do teu corpo procuro o olimpo
num espaço apagado de tempos de dor
e de olhos fechados invento o amor
recorto enseadas, baías, regatos e moldo a paisagem
planto caminhos, ergo cascatas, desenho a viagem
e resgato qual Héstia, meu fogo sagrado em águas profundas,
invento-me Réia e me ensino o caminho de terras fecundas.
no mapa do desejo, escuto Eros e me aprendo de novo
na terra quente experimento, guardo, aprendo e renovo
e me vejo inteira e abro meus olhos,
recolho minh'alma de debaixo de escolhos
traço a traço
lego a Ares os meus passos calcados
colados às marcas de passos passados
onde rainha dum paço
em que posso sem medo dizer
vivi soberana num palco a que quis pertencer
sem fados, sem fardos, sem sombras, rasuras,
repleto de luz vinda de mim, escapando clausuras
feita fortuna, feitiço, loucura, vitória, saber
e volto a (a)riscar o caminho de volta
na pele do meu manto de terra que sempre quis ter
aconchego
Na rede tecida em noites brancas de doçura
Enleada em azuis de fumo entrelaçados no espaço
em dança ondulante em estreito abraço
e volteios em espirais redobrados de candura
Quero-te
E deslizo e
mergulho no meu mar
De rede tecida
em brancas noites onde fico acordada
estendida na
fina pele de rendas de sonhos em fios de teia bordada
onde desfilam
cores em matizes de aurora com resquícios de luar
Espero-te
Na rede tecida
em brancas noites dolentes
enquanto
escuto o som da longa esteira de desejo
e me deleito com o
licoroso chão do teu corpo ébrio ensejo
adoçado ao sabor da espuma arrastada em sorvos cadentes
Encontro-te
Na rede tecida
em brancas noites onde me esqueço
enquanto ponto
a ponto se preenche frisa a frisa
o corpo ondulante abandonado ao sabor da brisa
no fundo do pano do ventre negro e liso onde adormeço
o corpo ondulante abandonado ao sabor da brisa
no fundo do pano do ventre negro e liso onde adormeço
Assim me conchego na rede de seda tecida em noites brancas
enleada em
azuis de sonho em espirais ondulantes de doçura
e volteios em espirais redobrados de candura
e volteios em espirais redobrados de candura
Co(a)ntos de olhar
Meus olhos estão mudos devíeis
ver
num tempo que é tempo, de
luto, cegueira vestida
amarras, cortina, anónimos
vultos e deserto saber
É tempo de choro de raiva de
luta, investida
contida promessa de acontecer
E em vão, se passeiam meus
olhos cinzentos
que teimam lamber os recantos
vazios sem nada dizer
Percorrem calados caminhos
despidos buscando alimentos
De cores de alento perfumes de
força e sonatas de fé
Num acordo se acordam, no
acorde de acordo com tempo
De novo compasso de esperança,
de pausa e espera dum acontecer
E prometem que é hora de luta,
de força e coragem, o momento
Da toada calada, investida incontida,
e a promessa de amanhecer
Então se levantam e se apontam
adiante enfrentado o vilão
Engolem o cerco e cospem
algozes meus olhos sedentos
Se vêem capazes vorazes e
empunham vibrantes a espada na mão
e lambem as cinzas amargas e espalham unguentos
nas vestes que vestem os
sulcos de pele que forram o chão
E enfim derrubam o muro
devoram o espaço e abraçam a multidão
E agora não calam e agora já
falam e me dizem que não
E cantam o acorde de acordo
com o tempo de novo viver
É tempo de luta, de festa em
promessa de acontecer
rumos
rumos de sonho dourado de estrelas
navegantes de brilho escarlate
hálito quente do húmus da terra que
invade o corpo
caldo revigorante no fresco morno
que amacia os dias
e marca o ritmo de mistura com a
frenética batida dos sons da cidade
futungo, futuro,embarque, sul, terra, choro e riso, sal e mar, lua, luanda
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