palavras de silencio

Não tardaste em aparecer sob um pretexto qualquer
e trazias os teus olhos rasos de dizer
Inundados de páginas inteiras de recados que transbordavam da cabeça
E das nossas bocas mudas, apenas as palavras que contavam as coisas importantes tornadas agora banais,
que já não conseguíamos ouvir
Abafadas pelo grito das que nos saiam do peito num soluço sufocado, aos borbotões
Assim mesmo sem querer.
Apenas uns breves instantes de ti para tomares de novo o meu espaço de sonho
Tantas palavras de silêncio

A Nau Violeta

Lá vem a nau violeta bem a tempo de contar,
Ouvi meus caros senhores esta trova de pasmar.

Ir então ao prestamista, prestigiado senhor
Não era, não querer dizer, de longe o viver a grego
Era sim, bem de verdade, pôr mesmo no Sr. Prego
Porque nos meados de dezanove, havia um benfeitor
Dono de todas as casas, ou ditos lugares de penhor
Onde iam todas as gentes, que queriam viver melhor

Na nova trip(b)ulação, num tempo de vinte e uns
Muitos em busca do Prego, ou outros e mais alguns
Viram ufanos chegar, a nova era afinal
Achando-se assim por dizer, agora de novo e igual
De volta em tempo real, ao tempo dos dezanove
Tudo na mesma afinal, tirando a prova dos nove

Em sinal de aflição, não tardaram em conceber
Agora pintadas de novo, outras tantas filosofias,
Mil e uma fantasias, requintes e ideologias
Fintas, jogos, tropelias, só para sobreviver

Apesar do desconforto, já sem mais imaginação
Pra não correr ao prestamista, ante tal condição
Achando-se gente de bem, e a não ter que mal parecer,
Com novas tecnologias, não iriam padecer
Eis que chegam então, à brilhante conclusão

Publicam um anúncio e clicam no botão

Outros tantos n(a) (des)ventura que procuram a solução
Cruzam também este caminho em torno da mesma razão
Esticar o orçamento numa busca bem malfadada
É a nova aventura, desta dit(os)a dura encruzilhada

E clicam também no botão

Porque apenas e só resta, o corpo para alimentar
Encontram-se assim por dizer,
Todos, na mesma ceia a comer
Literalmente, o sofá, a cama, a televisão e a mesa de jantar
Apenas para poder esticar o orçamento familiar
Pois é preciso salvar o corpo para trabalhar

É então que dão as mãos em torno da mesma razão
E ao velho novo prestamista, dizem não
Na busca da solução

É tempo de não empardecer

Quero-te só recordar, num tempo de tantas penas
Que ao veres-te grego, não o querendo ser
E mesmo sem ser em Atenas
Foges e mostras aquilo, que afinal queres esconder

Tu que vives consciente no Carnaval de disfarces
Vês-te apenas sem saída ou outros desenlaces
Na figura que não queres ver, nesta era que criaste

E na nova ordem sonhada
Pros teus filhos ver crescer
E por tantos trabalhada,
Senão numa outra compostura
Vais-te ver empardecer
Sob o peso da dita dura
Uma dita pesada a valer

E a aprender embriagado no Carnaval de disfarces
A arte de te esconder daquilo sabes ser
A negar e não querer ver naquilo que te tornaste
Trais o destino da sorte daquilo que sempre sonhaste
Quando a força está inteira na razão e teu poder

É tempo de não empardecer

grito de silêncio

Queria apenas gritar o meu silêncio
Em trovas, baladas, tan tans de choro ou longos lamentos de quissange,
toadas embaladas nas estradas do vento que veste o meu corpo nú de pele arrancada pela tua fome demiurgo,
Sorver a cálida e húmida seiva das nascentes da pleroma que alimenta a minha alma que tomaste
Queria apenas mostrar-te qual sophia do meu querer quando me tenho,
do meu sentir quando me detenho
e te travo de mim
quando me (re)tenho apenas só no meu eu preenchido de mim
Vou voltar de novo para mim

Hoje com a Alda

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Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...

Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...

Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...

Alda Lara

Hoje e Sempre! José Afonso

Hoje com Joaquim Pessoa

O ano comum tem destas coisas...
persigo-o sem o conseguir ainda encaixar nas brechas cada vez mais estreitas que o jogo de cintura já não deixa na dança diária do tira daqui põe ali da economia familiar
e dirão na barriga não podes tirar, mas tenho fome deste alimento direi eu e com isto tudo porque hoje, num qualquer dia comum, me apetece, beber o néctar que este alquimista das palavras tão sabiamente sabe criar.



Viver é... Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'