vesti-me de festim

vesti-me no hábito longo da espera
mirei-me e decidi aprender a tecê-lo

ao invés do pesado tecido de angústias
teci-o da mais macia e delicada seda
num exercício de esmero costurado de zelo
inventei contornos de penas em enlaços de fortuna

vesti-me do hábito longo de esperas de vitórias
a a veste áspera e fria tornei doce e quente de glórias

vesti-me de festim

quero-me na dianteira

acordo-me com vontade de me ver, primeira
quero-me na dianteira
e cumpro-me prometida de um só lugar,o primeiro
quero-me firme de mim por inteiro
então seguro-me certa de me querer inteira
e firmo-me de ver-me então e sempre, primeira
quero-me na dianteira
Lourdes Van-Dunem, ou Tia Lourdes como era conhecida em Angola, canta com os célebre N'Gola Ritmos para a RTP em 1964.
Esta é uma actuação histórica do grupo fundado por "Liceu" Vieira Dias, que viria a sofrer uma enorme repressão, terminando na prisão de dois dos seus fundadores (Amadeu e Liceu).
Por esta altura quem assegurava o grupo eram Nino, Fontinhas, Xôdo, Zé Cordeiro, Lourdes e Gégé.

azul

Uma das três primárias acalenta
A comunhão de pigmentos ciano e magenta

Entre os matizes, o menos expansivo aos olhos
Pela dificuldade de encontrá-las nos pobres
Em momentos diversos, destinada a temas nobres
E no começo medievo, a servos, sem escolhos

Da dificuldade para chegar ao tom
A época de Rómulo e Remo lhe deu o bárbaro dom
Até ter mirtilos olhos era achado barbárie criatura
De Isátis a escolhida, tinta dos tecidos de estatura

Das três primeiras apresenta
Comunhão de princípio ciano e magenta

Associada à frieza, depressão, monotonia
Também à paz, à ordem, à harmonia
No comprimento de onda um bilionésimo do metro
Do espectro cores visíveis na verdade,
Acreditem, estimula a criatividade

Pois ao deixar a planta fermentando em água,
Ureia ácido úrico, sal e outras substâncias a par
Juntavam o álcool que acelerava o processo
E vendo bem, para melhor resultar
Desse licor tintureiros se encharcaram do avesso

É assim da expressão blau werden,
Do norte até ao sul
Se veja vernáculo borracho em vez de azul

VOLTAR by Rodrigo Leao

da varanda do céu

Debruçada na varanda do céu
Finco os calcanhares na terra vermelha
E procuro o verde rubro da carne com cheiro de esperança
e cor com matizes de força de viver

Sinto o odor de sangue feito seiva
que pulsa das veias dos braços fortes do denso verde
e embrenho-me nas formas em desenho de corpo de ser
nascido tronco ramo rebento e ramo erguido
onde segura me escondo entre traços de folha e casca de pele de vestir

E assomo de novo às ameias do espaço de sonho
de onde alcanço a extensão de sul
e me refresco, saboreio e me aconchego em calmos silêncios
de conforto dos sons da orquestra vinda do verde denso de ti.