azul

Uma das três primárias acalenta
A comunhão de pigmentos ciano e magenta

Entre os matizes, o menos expansivo aos olhos
Pela dificuldade de encontrá-las nos pobres
Em momentos diversos, destinada a temas nobres
E no começo medievo, a servos, sem escolhos

Da dificuldade para chegar ao tom
A época de Rómulo e Remo lhe deu o bárbaro dom
Até ter mirtilos olhos era achado barbárie criatura
De Isátis a escolhida, tinta dos tecidos de estatura

Das três primeiras apresenta
Comunhão de princípio ciano e magenta

Associada à frieza, depressão, monotonia
Também à paz, à ordem, à harmonia
No comprimento de onda um bilionésimo do metro
Do espectro cores visíveis na verdade,
Acreditem, estimula a criatividade

Pois ao deixar a planta fermentando em água,
Ureia ácido úrico, sal e outras substâncias a par
Juntavam o álcool que acelerava o processo
E vendo bem, para melhor resultar
Desse licor tintureiros se encharcaram do avesso

É assim da expressão blau werden,
Do norte até ao sul
Se veja vernáculo borracho em vez de azul

VOLTAR by Rodrigo Leao

da varanda do céu

Debruçada na varanda do céu
Finco os calcanhares na terra vermelha
E procuro o verde rubro da carne com cheiro de esperança
e cor com matizes de força de viver

Sinto o odor de sangue feito seiva
que pulsa das veias dos braços fortes do denso verde
e embrenho-me nas formas em desenho de corpo de ser
nascido tronco ramo rebento e ramo erguido
onde segura me escondo entre traços de folha e casca de pele de vestir

E assomo de novo às ameias do espaço de sonho
de onde alcanço a extensão de sul
e me refresco, saboreio e me aconchego em calmos silêncios
de conforto dos sons da orquestra vinda do verde denso de ti.

o brilho dos meus olhos

porque te agarras à minha mão,
abraças o meu pescoço
com palmo e meio de braços
e agarras o mundo de cima protegido
pelas águas calmas da bacia do meu colo,
me faço fonte, terra, abrigo, fogo e sombra.
por ti meu pequenino me agiganto cada dia,
descubro as tuas descobertas
me encanto com os teus encantos
fantasio as tuas fantasias
e até me apanho a cantar sozinha,
a dançar ao compasso dum semba de memória
que viaja a toda a hora comigo
me faz rir à toa
e me pinta aquele brilho nos olhos

obrigada mãe

obrigada mãe por aqueceres o meu ninho

ajudares a trazer de volta o balanço quente de dias vibrantes
mesmo com chuvas cinza de vento pintados
pulamos o fusco e pousamos leve na cor de fatos brilhantes
com gozo de tempos de novo inventados

é assim mãe quando aqueces o meu ninho

páginas em branco

Escrevo páginas brancas, tantas, de dores e vitórias
Inscrevo recados tratados e formas de tudo mais
Procuro o sabor e a lembrança de todas as histórias
E guardo segredos, temperos e cheiros de gozo e de ais

E o espaço liso como de ventre sem vida estivesse
De espaços em branco vestido para quem olha
Esconde um colo repleto e prenhe como se quisesse
Invadir de surpresa o palco zombando sem escolha

Não se ruborizem faces
Não se incendeiem vestes
Não se inflamem hinos
Não se envergonhem fraques
Não se dobrem sinos
Não se curvem craques

Quando ao acender a vela o ácido citrino atear a vida
E os cadernos brancos inchados de verbo
Falarem de toda a comenda guardada e mantida
No claustro dourado de sonho de um servo

Em páginas brancas repletas de soro acidolante
Ante a chama ardente da fonte de luz ondulante

Meu primogénito, neste teu dia

Não, não é do careca dourado de que te vou falar
Dos trinta e cinco centímetros e quase quatro quilos de estanho
Vestido em ouro de catorze quilates pelo prestígio da sétima arte

Não, não é do cavaleiro brilhante que todos veneram
De espada de cruzado atravessada verticalmente no peito
Assente num pedestal à sua medida feito rolo de filme.

A Academia me perdoe, o colégio me absolva,
A cerimónia de muitos milhões na assistência me dispense.

Preferia antes lembrar a origem, como soa no velho inglês… OSker.
À lança dos deuses que faz jus ao teu desempenho na frente da vida
No do gaélico que te chama o amigo do veado
De Napoleão que te levou ao trono dos reinos do norte como Oskar I

Mas porque nem com Wilde ou La Renta,
Reconhecimentos à excelência,
Mitologias ou simbolismos de quem frequenta
Cerimónias de tanta eloquência,
Me contento,

Direi apenas,
Meu primogénito, neste teu dia,

Brilha como sempre o sabes fazer
Assenta bem os pés no rolo seguro do que quiseres escolher da sétima arte da vida
Empunha a lança dos deuses que faz jus ao teu desempenho na frente da tua vida
Esbanja a tua generosidade como do gaélico te dita
E acredita
Sê simplesmente
O meu filho Óscar