suspensa no tempo

fiquei suspensa no tempo
num tempo de nunca acabar
mãe, trouxeste-me de volta a festa
dos nossos almoços feitos serões
os jantares a abrir de novo a madrugada
em que na mesa cresciam as vidas temperadas de tradição
onde eternizamos paixões realizações e combates
fizemos, trouxemos, festa, luta, raiva, dor, amor
em cumplicidades fraternas de colos seguros.
mãe, como sentimos perto os corações que enlaçaste
e voltamos a dar voz ao tempo de família neste espaço
que bom foi estar suspensa neste tempo
que bom voltar ao lugar do tempo
num tempo de nunca acabar
foi mesmo bom estarmos juntos mãe

o pior são as casas vazias...

era suposto ser um caderno de família mãe...
corpos despidos...
assim rematava com um sorriso terno mas comprometido...
eu disse corpos despidos?...filho, é só poesia... e rimos juntos.
quando a minha companheira de viagem se meteu comigo parei para perceber até onde ía esta vontade.
afinal restava o conforto.
às vezes a tocar o arrebatador da vontade de querer
então confidenciei-lhe sorrindo quando senti o toque do gracejo...
...o pior são as casas vazias os dias cinzentos, as portas fechadas. então buscamos alimento. pela poesia... chamamos assim. à que nos alimenta nos habita com os t(s)ons de azuis...
(blues...(soul)ficava bem...)... ok...

apeteces-me

Apetece-me habitar-te
Habitar o odor da tua casa de eternos verões
Trajar as vestes de festa que te pertenceram
Vestir combates e lutas de (s) iguais que já travaste
Apeteces-me, simplesmente apeteces-me.

desencontro

Porque desistes da descoberta meu amor?
Porque apagas a chama e desfazes o caminho sem mesmo pousares a mochila?
A tua tenda, essa não precisa de chão.
Vive em ti entranhada qual mortalha,
embebida em sonhos e desesperanças de fé de razão.
Mas não, não a tomes como peso, ela será apenas a tua terceira mão
aquela que só existe na nossa razão,
a que faz com que entreabras a porta e deixes passar a luz
a que te faz descobrir o que se encontra entre o preto e o branco
e assim retomar a jornada
Depois, poderás dormir meu guerreiro,
e terás a paz da brisa quente do sul

hora de alda

Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.

Alda espírito Santo
in é nosso o Solo Sagrada da Terra, 1978, Lisboa, Ulmeiro

um bouquet de ternura neste teu(nosso) dia

A uma mulher extraordinária, um bouquet de ternura neste dia. Feliz dia da Mulher! foi assim filha que resumi a enorme vontade que tenho hoje de te abraçar e tu sabes meu amor... especialmente neste dia. Amo-te muito.

Beber-te na trilogia da degustação

Vou sorver-te de novo, gole a gole, a cada instante.
Beber-te na trilogia da degustação.
Provar-te o cheiro que inala o odor de ti e deixa que invada o céu da mente, entranhe ardente na terra da pele até que saia de novo em suor de cheiro doce pelos poros.
Deixar então que de novo me volte a penetrar as narinas.
Embalar-me na dança ébria das papilas que te gozam na bacia quente da boca que tenta teimosamente travar a doce viagem de rio.
Então aproveitar a descida das águas agitadas a montante na garganta ávida de gosto de ti onde ledas dormirão o sono dos deuses.
Finalmente deleitar-me no sussurro das águas calmas que esperam a jusante.
Assim, vou sorver-te de novo, gole a gole, a cada instante.