contraditório

Contraditório...
foi assim, que o 'relojoeiro' se referiu àquele desacerto.
Agora fico em tempo de aprender
a colocar o tempo certo, na medida da distância,
naquela que na razão nos une em separado.
É assim: existem dois tempos/espaços reais, filha.
o teu e o meu em paralelo como gaia e urano traçaram.
mas não convergentes, assim eu tento e me (es)forço,
e eu quero largar o espaço do teu percurso no tempo real, juro que quero.
Depois, depois dou-me conta que quando tomas o teu curso
eu o confundo ou o reivindico como meu, qual kronos.
Sejas zeus assim o espero, senhora do teu olimpo
pois desfeito este kronos de mim minha hera
ficarei mais perto do teu tempo, do teu caminho.
contraditório...

minha cidade (n)dos setenta

fiquei mesmo com a lagrimita no olho.
ía aqui mesmo de passagem e o namibiano trouxe-me a luanda embrulhada nos anos setenta com os negoleiros a lhe darem cor.
senti a festa daquela altura quando era garota,
tinha ainda o perfume do planalto central mas aprendia esta força da luanda que guardei.
depois de algumas tentativas para arrancar do "podO" a música,
o namibiano deu-me um empurrão e aqui está a minha cidade é linda

hoje

Hoje vamos riscar o sol de uma rapsódia de azuis
e deixar que a sua lava amarela lamba o mar deitado aos nossos pés
enquanto mansamente se balança e descansa entre marés
a seguir, pé ante pé enrosquemo-nos entre os dois
e deixemo-nos fundir no seu colo entre temperos de luz

almas feitas cravos rubros em chamas de sul

Fiz-me nascida de dois pais pares a par
hoje vista de maneira diferente
mas mesmo assim com outros muitos olhos de mau ver.
Traziam consigo a natureza de mãe que me não pariu
mas vincaram-me o legado deste ser de mim.
Feita desta feita só hoje me reconheci
este mim que hoje faz ver-se com outro olhar.
Perguntaram-me ventos do sul de onde és
e os do norte o que és afinal
e a todos respondi o que o pai do norte me ensinou:
Não!"Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui...!"
assim com o verso do soneto presente que me alimentou me aquietei
Eis então que os olhos e as bocas do sul se escancaram
e de esguelha me encurralavam perguntando
E quem és afinal? para onde vais? o que esperas tu?
e a todos respondi o que o pai do sul me ensinou agora com o recado da alma de ventos do norte:
o que quereis vós, que alvíssaras vos hei-de dar?
"Não me peçam sorrisos ... as honras cabem aos generais...
...num novo catálogo, mostrar-te-ei o meu rosto
coroado de ramos de palmeira, e terei para ti os sorrisos que me pedes"
Assim feita de dois pais a par, ary e neto se colaram
em almas feitas cravos rubros em chamas de sul
deixando recados selados sagrados de almas gémeas
"...Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu", pois é assim chegada a hora "...de juntos marcharmos corajosamente para o mundo de todos os homens"

Excertos de poemas:Ary dos Santos e Agostinho Neto

é (sempre) tempo



Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo

Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura (2x)