o meu cajado | das cantigas de escárnio e maldizer

se o símbolo do meu poder
estiver no meu cajado
então este será o prolongamento do meu braço
irei pois morrer com ele
ninguém o tomará de mim

para o defender
tomarei o teu castelo
percorrerei montes e vales
desvastarei e arrasarei quem se atravessar no caminho
em nome de um deus desconhecido
que desflorou donzelas
reprimiu irmãos,fez escravos, conduziu soldados
dizimou nações
e não protegeu os seus filhos
mas que orgulhosamente defendeu a instituição sagrada

para ser perfeito
vou chamar-lhe um nome
que honrarei e defenderei a todo o preço
à dignidade e o direito de o usar exigirei zelo
não o deixarei em mãos alheias

direitos fundamentais com a mayer

ontem derrubei um muro
cheguei à conclusão que era apenas de areia
era feito de PRECONCEITO.
depois de vários revés
munir-me de armas e ferramentas para fazer face à situação
peguei num pequeno instrumento que era feito de DIREITO.
fiquei então confudida senão mesmo comigo desapontada,
se os meus altos valores não me traíam
deveria ser o primeiro, senão o único que deveria ter usado.
com muitas explicações introspecções, acatos e desacatos
à volta daquela questão,
cheguei à simples conclusão que todas elas andavam
em torno de um (turbilhão)palavrão, a que chamamos CONCEITO.
Então todo o ruído, toda a diversão andava à volta do conceito
foi afinal tão simples... tão claro... e esclarecedor...
ontem aprendi a lição apenas de uma diferença, entre uma questão de direito e uma questão de conceito e que fazem a sentença.

Quero-te por ao colo querida

Quero-te por ao colo querida,
continuar a embalar-te nos braços
afagar a carícia dos teus caracóis enleados
de ondas de venturas e vitórias
com matizes de desassossegos e desesperanças
que repousam e se enlaçam nos contornos do meu seio
e acordam no meu espaço da alma ainda enferma
Asseguro-te que estarás segura
poderás balançar-te, jogar sortes à sorte
calcorrear caminhos quase de olhos fechados,
asseguro-te que estarás segura.
Mas quando te dou o espaço da tua altura
a que tenho na mente não corresponde à tua medida
medes-te muito acima da que tenho ao colo
assim não podes caber mais e eu não me conformo
porque te sinto leve no espaço da minha alma.
Quero-te por ao colo querida,
mas tenho que te deixar seguir.

o verde é sorriso porque é feito de sol e de mar

o verde é sorriso porque é feito de sol e de mar
de cores combinadas de luz e odores
o verde é sorriso porque a esperança o abraça
e se ata ao desejo vestida com cores de luares
porque os luares sabem a paixão
e a paixão nos devolve e envolve na esperança
de volta aos lugares de sonhos de cinzas azuis feito verdes
fundidas no desejo da fluidez quente de sois
assim me vejo de paleta em riste
contorcer e combinar as formas e vontades minhas
aperfeiçoar a arte de esculpir caminhos
e em estradas de cores ouço murmúrios de verdes
que lentamente sobem ao tom de baladas de sol e de mar
que compus para mim enquanto espero
o verde é sorriso porque é feito de sol e de mar

desabafo

agora percebi a clausura
e desatei a escrita
ficou tudo mais claro
no verdadeiro sentido.
dou por mim às vezes no escuro
num emaranhado de teias
e tenho medo
tenho medo quando me falta a escrita
quando a mente escurece e fica em branco
eu sei
sei que o escuro branco me assusta
castra, trai e tolhe
então procuro seguir a luz
pisar as brasas do caminho e seguir
vou subir as mãos vazias
não as deixarei cair

hoje com sofia, Poema

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen