o verde é sorriso porque é feito de sol e de mar

o verde é sorriso porque é feito de sol e de mar
de cores combinadas de luz e odores
o verde é sorriso porque a esperança o abraça
e se ata ao desejo vestida com cores de luares
porque os luares sabem a paixão
e a paixão nos devolve e envolve na esperança
de volta aos lugares de sonhos de cinzas azuis feito verdes
fundidas no desejo da fluidez quente de sois
assim me vejo de paleta em riste
contorcer e combinar as formas e vontades minhas
aperfeiçoar a arte de esculpir caminhos
e em estradas de cores ouço murmúrios de verdes
que lentamente sobem ao tom de baladas de sol e de mar
que compus para mim enquanto espero
o verde é sorriso porque é feito de sol e de mar

desabafo

agora percebi a clausura
e desatei a escrita
ficou tudo mais claro
no verdadeiro sentido.
dou por mim às vezes no escuro
num emaranhado de teias
e tenho medo
tenho medo quando me falta a escrita
quando a mente escurece e fica em branco
eu sei
sei que o escuro branco me assusta
castra, trai e tolhe
então procuro seguir a luz
pisar as brasas do caminho e seguir
vou subir as mãos vazias
não as deixarei cair

hoje com sofia, Poema

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

já abri(li) o presente

aqui há uns meses escrevi esta nota no meu diário de bordo:
"depois, uma imagem linda da cascata cor-de-rosa... porque é que eu a vejo assim? não é nada, é a montanha de água lilás. agora até a vejo acocorada por debaixo de um arco-iris. ainda não a bebi mas tenho cá uma vontade, que me apetece largar tudo e ir a correr buscá-la".
foi assim, depois de teres falado no livro do pepetela. coloquei este relato de viagem porque precisava de falar dos pensamentos que me acompanhavam.
é tão simples, dizias, um livro de bolso e custa aí à volta de cinco euros, parece infantil, mas não é. e depois tem personagens curiosíssimas com um nome... deixa lá ver se me lembro...." e não te lembraste, pois disseste uma palavra engraçada que depois me fez rir quando eu descobri que eram os lupis, lupões e jakalupis. na verdade quero saber o que acontece aos poetas e sonhadores nesta trama. provavelmente saberei pois a vida bem me tem revelado, mas fico sempre curiosa ou talvez seja uma forma de ao rever-me aceitar melhor a minha crosta.os outros já sabemos como se besuntam todos nestas coisas da corrida ao ouro.
nesta altura dos presentes debaixo de árvore iluminada lembrei-me de me oferecer.
agora mimo-me. pus dedicatória e tudo. não, foi só assim: Natal de 2009.
embrulhei e fiz um laço de papel com categoria.
desembrulhei-o e pu-lo na cabeceira mas só ontem o bebi.
deixei-me mesmo perfumar pela água lilás.
lareira acesa e tudo. enquanto esperava pela mãe já ao final da tarde. depois só interrompi naquele espaço em que estivemos em conversa quente com o mano mais velho a mãe e os miúdos. mas aquelas personagens seguiram-me e antes de apagar a luz já me tinha despedido. vi a data. foi do período de 83 a 99. enquadrei a inquietude. saboreei as palavras. digeri a mensagem.
este é um daqueles tesouros ("deus das pequenas coisas")que me fez prometer-me, vou contar a estória. aos pequenos e aos mais velhos. o isaac vai saber a estória dos cambutas e dos outros maiores.
aquela do tempo em que os animais falavam e dos uns seres que viviam felizes apesar das diferenças. da vida na montanha e na planície. até ao dia em que sentiram o perfume da água lilás.

em estado de graça

cou... cou... (estou, estou)
e com um jeitinho macio
desliza em passos de anjo
com tudo o que se parecer com uma pequena caixa que cola ao ouvido
vira-se, e acompanha a expressão com a sua linguagem imitando as situações que vê no ecran dos dias, vistas de lá de baixo da sua altura e acima de todos os nossos melhores sonhos. eu embevecida tento acompanhar e solto-me descendo ao solo da paixão. amo-o tanto. chamo a isto um estado de graça e não quero acordar.
hoje teimei em expressar mas até temo não estar à altura de todo este estado de graça.
começa todas as frase com olha! e depois de uma pausa, exprime todas as opiniões que tentamos decifrar enquanto os sois desfilam, o ar perfuma-se de sul, harpas e quissanges exibem a sua expressão maior e enebriam todos os presentes.
se ficasse condenada a um não futuro sem sonhos já teria ganho uns quantos de bónus em momentos de sonho.
isto de ser avó babada é uma chatice de bom!

do António Jacinto - Canto interior de uma noite fantástica

sereno, mas resoluto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado.

ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.

não quero tudo quanto me prometem aliciantes
nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o sesejo dos muitos com que me pareço.

quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
e se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera

que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais.

que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viscosos.

que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado.
e não transportarei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho.

assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!

António Jacinto