só mais uma laçada

só mais uma laçada para acabar esta volta
abertos e fechados, um dois três
sem apertar muito o ponto que pode fechar o caminho
sem alargar demais também, não vá ficar de viés
muito certinho não fica, posso tentar outra vez,
aos pontos soltos dá-se uma àchega
aos nós rebate-se, desfaz-se e rés vez
aos remates chegaremos, numa paciência talvez.
e vamos devagarinho soltando as voltas
de vida na vida de pontos cruzados
enlaçados de fitas feitas grilhetas
feitas grinaldas, feitas c(d)or e coragem
só mais uma laçada, tricotemos

caminho para sul

sente-se o cheiro a tinta fresca
as paredes vestem-se de novo
e a luz entra aos borbotões
numa invasão de euforia contangiante

esqueço-me dos cheiros antigos
e as roupas novas de momentos de festa
desvanecem as imagens de registos do luto
impregnando o ar de novos e quentes odores

não procuro porque temo o encontro de desencontros
se me quedo a pele cola-se à vertigem da solidão
então, fixo o pendulo fiel da justa verdade
e a realidade mostra-se na montra colorida dos dias

então disfruto, abraço o novo e desfaço o velho
emprenho de sons numa luxúria de cor
dispo o corpete e experimento o manto de linho
e deleitada deixo-me abraçar completamente rendida
pela doce sensação do caminho para sul

parabéns mãe!

hoje é o teu dia mãe
e por mais que diga tudo fica muito áquem
daquilo que faz de ti a minha mãe
enlaço as mãos nos poemas de josé gomes ferreira
que encontrei compiladas por Luis Rodrigues
e um bocado ao acaso
um bocado com sentido sentido
vou-te oferecer este bouquet


como que à laia de pensamento

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão, (para ti)
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las. (para ti)

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino. (para ti)

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.


como que à laia de um desejo...

Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)


como que à laia de um suspiro...

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.


como que à laia de um desejo...


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

Se houvesse degraus na terra...com Herberto Helder

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

mãe consegui! começo amanhã!...

ele queria tanto...
é que ele sente que lhe correu muito bem a entrevista, ele diz que ainda lá esteve cerca de uma hora. foi diferente, muito informal e deu para falar sobre tudo.
Isto foi segunda feira e como ontem foi feriado...
pois, ainda não lhe responderam...
e comentava eu com a minha colega que ainda anda na recta final da licenciatura a mastigar também amarguras antecipadas do caminho
pois, o filho, anda às voltas à procura do estágio... é que isto depois da licenciatura... é complicado.
É que já começa a tornar-se difícil aguentar aquele cansativo call center que lhe ocupa os fins de dia e lhe ajudou durante os anos de prova a aguentar propinas públicas quando as dores das voltas burocráticas e inquisitórias de bolsas anunciadas ficam no caminho do desgaste dos dias.
e sabes? ele gosta mesmo daquela área para que se candidatou. é de execuções. está à vontade diz ele...
juntei a palavra ao toque do moche e não o ouvi do lado de lá. mas às onze horas não era muito normal.ele já devia estar levantado...
insisti, e agora ele do lado de lá eufórico... a mãe é a primeira a saber porque me ligou e eu acabei de receber a resposta à candidatura. era também a resposta ao não ter respondido ao primeiro toque.
mãe consegui! começo amanhã!...
chorei, claro que chorei.
mãe recomponha-se, vá lá, e eu não conseguia parar! e as lágrimas saiam misturadas com risos e frases embargadas pelos muitos dias de partilha coroados de casos.
mais uma etapa. temos candidato à barra.
partilhei logo a seguir com a filhota... mãe, não estou a perceber comigo não chorou, e eu de novo, mas tu és a menina prodígio... e este foi um parto mais difícil filha... rimos juntas.
prometemo-nos o almoço a comemorar, mas hoje não dava.
então e o zaac filha, só perguntei no final... ele está bem mãe. desligamos a saborear o momento. não consegui ainda falar com o Jokas, está nas aulas mas já mandei uma mensagem. e depois muitas mais a todos o que partilham esta nossa luta.

viajando com benetti

espero



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viagens solitárias.... hoje na espiral naveguei por aqui

a viagem pelo tube sempre me pareceu curiosa
antes até misteriosa
talvez por isso eu sempre faça a similitude
tube, tubo, canal.
a aventura começou com viagens algumas interrompidas
pela inexperiência
depois a súbita glória da falsa facilidade
e o cruzamento de espaços antes impensáveis
então, o passado torna-se presente, o futuro já ali
os caminhos acessíveis
tudo à mão num clique
saboreio o calor de sons cores e cheiros próximos e familiares
mas também outros a que de início reajo com alguma estranhesa
sabores direi frios, como os que hoje experimentei.
hoje na espiral naveguei por aqui